Lonnie Holley
Palácio Foz, Lisboa
26- Nov 2013
Oh da Palácio da Foz em Lisboa, pertença outrora dos marqueses de Castelo Melhor (o quê, melhor que o palácio?!), encomenda artística ao arquitecto italiano Francisco Xavier Fabri, em1889 adquirido pelo marquês da Foz, daí o seu nome, mecenas dos seus interiores sumptuosos com trabalhos de José Malhoa e Columbano. Essa data já é pós-abolição da escravatura, o que inocenta o dinheiro do magnata português, por acaso da área dos caminhos-de-ferro. De qualquer forma, desconheço os seus actuais donos, imagino que seja o Estado, dado ser um Imóvel de Interesse Público ocupado pelo Instituto de Comunicação Social e por um posto de turismo. A dado momento do concerto, Lonnie Holley dedicou um tema aos supostos donos, agradecendo poder tocar ali naquele espaço. O tema tratar da escravidão negra nos campos de algodão ao invés de coincidência, parece-me fina ironia do norte-americano que saberá alguma da nossa história colonial, tão infeliz como outras no que toca a proveito com o tráfico de seres humanos de África para o Novo Mundo.

Mas fora esse lado irónico-histórico, o concerto da noite de 26 de Novembro, no palácio em questão, na sumptuosa Sala dos Espelhos, foi tão belo como cada m2 dali. Que sítio maravilhoso para dar um concerto malta da Filho Único! E já nem é primeira vez, excepto no que toca à minha parte. Primeiríssima vez. E logo numa cadeirinha à frente desta mistura visual entre Sun Ra, Lee Perry, uma alma blues descendente das entranhas do Alabama e um espírito digital DIY carregado de fantasmas que vão de Moondog a Arthur Russell. Por falar nele, era sua a música com ecoava às 22h no aconchego barroco da sala pré-Lonnie. Ao centro da loucura dourada e espelhada, um piano negro e o Nord Electro 2. Um teclado velhinho que deu ao mundo o “Whiter Shade of Pale” dos Procul Harum e “Logical Song” dos Supertramp, mas que aqui começa às 22 e 20 a ser dedilhado e martelado repetitivamente de forma quase esquizofrénica, mas apetitosamente melódica, pelo soberbo contador de histórias Lonnie. Em grande parte tristes, fruto das suas vivências, da pobreza económica à pobreza de espírito dos brancos do Alabama, epicentro da escravatura norte-americano e da sua difícil digestão posterior à abolição, tudo isto mesclado com acidentes de percurso marcantes, como perder duas sobrinhas num incêndio, ou ter de apanhar lixo como trabalho de infância.

A todas estas memórias, Lonnie faz como na sua arte bruta, relativamente apreciada e reconhecida nos E.U.A. desde os oitentas: não deita nada para o lixo, recupera tudo de forma a reciclá-la em mensagens para o futuro. Para os humanos, os seres humanos que todos somos, embora por vezes alguns não o pareçam ser. Alternando o seu pobre Nord com o apetecível piano ali ao lado, as teclas apesar de produzir sons diferentes, deram aos poucos mas bons que ali estavam, o mesmo prazer bluesy drone de o ouvir interromper o silêncio da sala com pedaços da sua vida. Apesar de todo o minimalismo da sua presença sonora, a cada tema os aplausos eram maximalistas, atingindo o auge depois do quase irreconhecível mas igualmente psicadélico e poderoso “Six Space Shuttles and 144 000 Elephants”, requerendo até um encore, que simpaticamente acedeu. Uma hora para recordar para sempre que se ouvir os seus dois maravilhosos discos na Dust-to-Digital. Saúde, sexagenário Lonnie, e venham mais.
· 27 Nov 2013 · 20:39 ·
Nuno Leal
nunleal@gmail.com

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