Pop Dell´Arte
Fórum Lisboa, Lisboa
27 Jul 2005
João Peste... é um gajo estranho. Há 20 anos começou os Pop Dell’Arte, uma das bandas mais criativas de sempre em Portugal. Eram os anos 80, era Campo de Ourique, era o que vinha depois do pós-punk anglo-saxónico. Lá fora as bandas rompiam com a convenção, criavam uma identidade própria, e, cá dentro, em vez de regurgitar o que vinha lá de fora, os Pop Dell’Arte decidiram criar a sua própria identidade.
Nunca foram uma banda que escondeu as suas influências, donde é que vinham, como é que tinham ido parar ao sítio onde estavam. No meio duma suposta canção de amor – “Sonhos Pop” – João Peste punha-se a debitar nomes de movimentos, como “Dada e o surrealismo”. Logo, faz sentido que as projecções que se vêem em palco sejam de ícones relacionados com movimentos artísticos, com cinema avant-garde ou com a cultura pop dos últimos anos.

O palco está adornado com girassóis. Na tela é projectado um relógio com horas, minutos e segundos, que vai ilustrando o quão atrasada a banda está. O concerto está marcado para as 10 da noite, mas a banda só entra em palco às 10 e meia. Começam com “Berlioz”, e logo a seguir João Peste, vestido de fato e gravata, com o blazer meio vestido, começa a cantar. Irá passar a próxima hora e meia (com os devidos descontos de sair/voltar a entrar no palco para mais um encore) a gesticular, a tossir, a representar, a ser ele próprio, a sabe-se lá mais o quê. De vez em quando, entre os temas, há a cappella de Peste.

Pouco comunicativo com o público, vai liderando a cacofonia, toda esta free pop. A free pop inclui elementos barulhentos, como guitarras percutidas ou o trompete de bolso de Sei Miguel que raramente abraça conceitos chatos como os de “melodia” ou “prazer auditivo”, misturados num caldeirão com canções e todo um cariz pop que torna a música acessível. Dadaísmo, surrealismo, desconstrutivismo, montes de “ismos” são ali aplicados, enquanto vemos projectados na tela exemplos do movimento dada, da Bauhaus, da Pop Art, da Nouvelle Vague francesa, de filmes europeus, de uma panóplia de referências diferentes que se estendem até ao homoeroticismo de “Querelle”, com strippers masculinos vestidos de cowboy com fio dental. Tudo isto com um cow bell.

A banda vai revisitando grandes clássicos, como se tivessem sido criados ontem, sempre com sonhos pop, porque, por cada devaneio de Sei Miguel ou cada elemento barulhento, há sempre algo de convencional, de orelhudo, uma melodia, um elemento pop que faz com que tudo aquilo não seja apenas uma massa amorfa de experimentação. Há ali canções, elementos convencionais, uns riffs cantaroláveis, uns refrães, há sempre algo que torna tudo acessível. Há dois temas inéditos, novos, “Apollo” e “Noite de Chuva” (aqui entra a referência a Campo de Ourique).

Apesar de terem elementos novos, os Pop Dell’Arte continuam (achamos nós, só tendo como ligação ao passado os registos gravados) cheios de força, vigor e poder. E não há zumbidos dos amplificadores que tirem isso. O gajo estranho (que não é só o amor) continua lá. Devia era sair da toca mais vezes.
· 27 Jul 2005 · 08:00 ·
Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net

Parceiros