Orelha Negra
Lux, Lisboa
21- Mar 2013
Confesso que há uma coisa que me fascina em particular nos Orelha Negra: o de, por vezes, não conseguir perceber bem o que é que a banda está a tocar. Não falo dos samples – ainda que muitos (grande parte) não consiga apanhar. Mas falo mesmo do momento em que estou a olhar para o palco onde estão a tocar Cruzfader, Francisco Rebelo, Fred, Sam The Kid e Diogo Santos (o grande João Gomes anda em digressão pelo mundo com Ana Moura) e a apanhar bonés: quem é que está a tocar o quê?

© Vera Marmelo

Não é só a música que desperta em mim a curiosidade. Ver um concerto de Orelha Negra – como o que fizeram no Lux para festejar o lançamento da nova mixtape – é voltar a ser o miúdo que olhava atentamente para o pai a conduzir e que tentava perceber aquilo com uma perspectiva de ser uma nave espacial: “Mas por que raio é que ele carrega naquele pedal ao mesmo tempo que mete a mudança?” Um fascínio infantil pelas embraiagens. E nos concertos de Orelha Negra, nunca consigo perceber onde está a embraiagem. Se calhar é tudo automático?

Não é.

A escola do hip-hop deu a estes músicos o poder de ter a mente aberta para tudo o que é música. MPB, rock, soul, funk, jazz: tudo na mesma panela. Depois há o talento e a paciência. A paciência para se mandar ao diggin’ e ir à procura daquele pequeno pedaço de canção – seja dos Kris Kross, seja dos The Fevers. Seja dos Beastie Boys, do reverendo Julius Cheeks ou dos Mind da Gap. O talento constrói o resto: aparam-se os cantos e monta-se tudo como se fossem peças da Lego a recriar um Mosteiro dos Jerónimos numa espectacular unidade arquitectónica.

© Vera Marmelo

Ontem, no concerto do Lux, quis voltar à missão de tentar perceber de que forma é que tudo aquilo se processa. Quem dispara o quê? O trabalho de Sam The Kid é apenas no MPC a disparar vozes e o de Cruzfader é só no scratch? E as teclas? São disparadas pelos dois, ou há sons mais clássicos (hammonds ou clavinets) que também são criados “live”? Muitas perguntas que continuam sem resposta na minha cabeça. Então continuo a dançar a “Round4Round” e a olhar para aquela garota que parecia que estava a participar numa aula de aeróbica dos anos 80, com maillot magenta. E no meio disto tudo há o trabalho rítmico de Fred e Chico Rebelo – dois metrónomos a dar a base para a construção de todas as camadas.

Mas, afinal, onde está a embraiagem?

A casa lisboeta esteve lotada para ouvir os cinco. Uma coisa interessante de observar nos Orelha Negra é a forma como chegam a vários tipos de ouvintes: do clássico fã de hip-hop que vai para ouvir a génese de todo este trabalho – scratches, beats clássicos e breakbeats; até à malta que simplesmente gosta da unidade afectiva de canções como “MIRIAM”, “Throwback” ou “Juras”. Há “caps” dos Yankees e baggy jeans ao lado de botas Chanel e indivíduos com óculos de massa preta. E tudo dança.

© Vera Marmelo

O lançamento da mixtape do segundo disco da banda – e que conta com a participação de Amp Fiddler, Peter Hadar, Valete, Mónica Ferraz, Fuze, Capicua… - ajudou a levar tanta gente ao Lux (hoje é no Hard Club, no Porto!). Mas se não houvesse, provavelmente esgotava na mesma. Mas em palco, só os cinco músicos a tocar as canções dos dois discos já editados. “Bala Cola”, “Polaroid” ou “24/7”, do segundo registo; ou “Cura”, a fechar o alinhamento de cerca de hora e meia. Depois há também os momentos de criação apenas para o live set: a banda chama-lhes “medleys”, em que puxam a sério das influências do hip hop: de LL Cool J a Beastie Boys, passando pela recriação de Otis Redding feita por Kanye West e Jay-Z. Tempo também para uma viagem pelo hip-hop tuga: Valete, Bónus e Adamastor; “Outra vez vez sente sente na tua mente na tua mente, põe põe rec rec no teu deck deck”, cantam os Mind Da Gap. E os Orelha Negra – que muitas vezes assumem uma intensidade e atitude rock naquilo que fazem – no acompanhamento.

Mas não vale a pena entrar em discussões sobre aquilo que são os Orelha Negra. É pura embraiagem e carburador hip-hop. Está lá a escola todinha: “chops” e “cuts” e edição em tempo real. Tudo com a mestria de dois gigantes da cena hip-hop portuguesa: Sam e Cruzfader. Depois entra em cena o universo soul e funk e as capacidades criativas e de execução de dois músicos de excelência: João Gomes e Francisco Rebelo, criadores naturais de groove. E a segurar tudo está um dos mais versáteis bateristas que andam por cá, Fred.

© Vera Marmelo

Para falar a verdade, cada vez tenho mais a ideia de que ouvir Orelha Negra não é muito diferente de meter a rodar uma bolacha de um produtor de hip-hop. Um “Petestrumentals”, de Pete Rock. Ou um “The Shining”, de J Dilla. Ambos mestres de estúdio, de caves com estantes recheadas de discos. Tal como os Orelha Negra: as mesmas referências e as mesmas inspirações. Mas aqui são cinco cabeças e dez mãos que funcionam muito bem.
· 24 Mar 2013 · 22:30 ·
Bruno Martins

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