Capicua
Galeria Zé dos Bois, Lisboa
22- Fev 2013
Capicua Goes South: ZDB live tape vol. 2

Nuno Leal

22 horas, dia 22 de fevereiro.
Ana Fernandes a.k.a. Capicua não cumpriu à risca o epítomo da data anunciada. No palco fazia tempo um jovem DJ que alguém rotulava de "DJ Karaoke" tal era a forma efusiva como dançava e sobretudo fazia lip sync perfeito das letras do R&B com que ia tentando aquecer o aquário ainda nada embaciado. Pelos cantos da ainda Zzzzz...DB, algumas mentes iluminadas profetizavam que Capicua começaria o concerto exactamente às 22 e 22.

Népia, boca nos Nostradamus de esquina. 22:23 diz o Casio e chove a potes. Lisboa com tempo à Porto. Nem mais. Era o sinal. Mini-molha a passar a fronteira do páteo mas tem que ser, já se ouve, quase um ano depois de um concerto ali mesmo, em Março, ei-los de volta, plateia bem composta: Capicua, M7 e D-One. Em terras de aquário ecoa "Sagitário!!!" pedido e gritado por uma rapariga do público acabada de ligar à corrente. 1, 2, 3, aqui vai disto. DJ atrás, as duas miúdas mulheres feitas de hip hop em frente, e lançam-se às feras totalmente domadas pela classe das palavras arremessadas como quem deita para fora o que lhe vai mesmo na alma.

© Vera Marmelo

Entre temas do seu passado nada distante e outros do recente presente Capicua Goes West (Mixtape Vol.2), sem supresa levámos com excelentes “Amigos Imaginários”, “Jugular”, “Medo do Medo”. Surpresa era se quem estivesse ali não estivesse a curtir. E supresa, surpresa, pelo menos para quem viu Capicua pela primeira vez (eu!), surgiu pós-“Judas e Dalilas”, ao som de "Lingerie" e em redor de um varão: Carol. A dançarina. E como aqueceu o ambiente já de si aquecido. Segue Carol no varão trémulo (coitada, condições péssimas, mesma assim grande destreza sempre naquele quase-vou-cair) e de repente estávamos num concerto de M7 featuring Capicua e não o contrário. "Tabu" foi lindo. "Se não fosse o caramelo, o que seria do leite creme?". Verdade.

"Carolina Matos!" apresentou Capicua a dividir o aplauso (acho que foi Carolina Matos, salvo erro da minha memória entretida com outras coisas).

© Vera Marmelo

A chuva não parava, a lembrar todos que não vale a pena sequer ir ao bar e perder um minuto que seja. Capicua segundo me contam está mais à vontade em palco do que há um ano atrás, compreensível. O que vejo e oiço é uma tímida grande simpatia e poderosa criação de empatia com pronúncia do norte, que lhe dá traquejo para as cada vez mais prováveis multidões maiores que se lhe avizinham. Digo isto porque o que veio a seguir é bem mais FM-friendly. Culpa do seu convidado - Isaac - que entra e se senta à viola e com ela recria os temas em caminhos mais urbano-depressivo-fofis. “Vinho Velho” e sobretudo a sensação de internet "Casa no Campo" versão Vimeo. Algumas vozes da multidão feminina e um rapaz mais raparigo repetem "ai, acho que vou chorar". Capicua meio a rir, meio a puxar a lágrima queixa-se que não está ali hoje para o sentimentalão, que um dia prepara-se melhor e faz um concerto só com temas desses.

© Vera Marmelo

Sai a "coolness" de Isaac e regressa a energia do girl-power da M7 mais para meu gosto, mais clássico Capicua também, confesso. E em grande forma, as palavras disparam e metralham os clássicos instantâneos "Totem", "Feias, Porcas e Más", “Pedras da Calçada”. O fantasma do grande Zeca entrou, tinha bilhete e moveu-me a cantar bem alto “Grândola Vila Morena”, mas não o fiz. Se calhar pegava, se calhar cantava toda a gente, se calhar parecia desajustado. Não estava ali nenhum ministro para calar, só uma rainha. Aliás, duas. E ninguém as queria calar.

© Vera Marmelo

Chega “Maria Capaz” de ser a última, mas não o foi. Cortesia de alguém do público. "Medjo du Medjoh!!!". Em português de pronúncia bifa, eis a fã internacional nº1 a sugerir Capicua repetir uma e não só o consegue, como leva um CD oferecido na primeira pessoa e com um "obrigado pela simpatia". Talvez mais uma grande história de Erasmus para contar. Pode contar que "Medo do Medo" regressou e arrasou, movido a uma batida a roçar o dubstep, cortesia de D-One. Clap clap clap rendido. Também ainda não é 0:00, são 23 e tal ainda, mas não importa: Capicua agradece e promete continuar por ali, porque agora também quer "só curtir". DJ Karaoke (perdoa-me bro mas não consegui mesmo saber o teu nome), Isaac e D-One fizeram as honras, um autêntico after de concerto. Cortesia da chuva e das boas malhas, toda os sobreviventes a dançar, Capicua incluída. Promessa cumprida. A malha playback da noite foi de Tyler The Creator, pelo menos até ao momento em que tive de sair. E tive mesmo, senão ficava.
· 24 Fev 2013 · 20:55 ·
Nuno Leal
nunleal@gmail.com

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