Oneohtrix Point Never & Nate Boyce
Teatro Maria Matos, Lisboa
Da colaboração entre o produtor Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never, Ford & Lopatin, etc.) e o vídeo-artista Nate Boyce resulta uma síntese elementar, mais ou menos depurada, de som e imagem. Boyce já tinha criado uma estrutura visual para a faixa homónima do LP Russian Minds (No Fun Productions, 2009) de Oneohtrix Point Never, ao que se acrescem as sucessivas participações em espectáculos ao vivo do mais reconhecido projecto de Lopatin (nomeadamente na edição do festival “All Tomorrow´s Parties” curada pelos Animal Collective, em Maio de 2011). A relação entre ambos tornou-se de tal forma estreita e profícua que acabou por se expandir, naturalmente, até alcançar um ponto – o projecto “Reliquary House”, estreado no MoMa, Nova Iorque, em 2011 – de geometria variável em que os planos sonoro e imagético quase se equivalem e fundem num híbrido de vídeo-arte, música ambiental, experimentalismo, cinema estrutural, psicadelismo, corte & cola, fragmentação…


© Gustavo Sampaio

O espectáculo ao vivo no Teatro Maria Matos cingiu-se a esse projecto audiovisual, tendo Lopatin e Boyce actuado lado a lado, num plano equivalente, de frente para o grande ecrã e respectivos ”laptops” (e de costas voltadas para a audiência, com a qual não comunicaram). Uma experiência conceptual com cerca de 50 minutos de duração, pautada por esculturas sonoras que se materializam visualmente, ou vice-versa, através de movimentos repetitivos e circulares em torno de figuras geométricas, texturas siderais, ideias abstractas. Não há uma dicotomia entre som e imagem, aliás, não se trata propriamente de um “concerto” mas de um espectáculo multimédia, tão enquadrável na sala de um cine-teatro como no espaço (e tempo) de um museu de arte moderna ou contemporânea.


© Gustavo Sampaio

No entanto, tal como a generalidade da vídeo-arte, “Reliquary House” peca sobretudo pela ausência de uma narrativa, por entre fragmentos dispersos, imagens difusas, partículas sonoras em ebulição, apontamentos aleatórios, ruído estático, energia centrífuga de sintetizadores, camada sobre camada de “loops” e “samples” que colidem entre si ou intermitências liquefeitas de luz e cor. Não é por acaso que a edição em disco (NNA Tapes, 2012) deste projecto é complementada pelas 5 faixas de In 1980 I Was a Blue Square, colaboração entre Lopatin e Rene Hell, onde se reencontram os espectros melódicos e linhas de piano que derretem a electrónica glaciar de Oneohtrix Point Never nas preciosidades encapsuladas em Returnal (Editions Mego, 2010) ou Replica (Mexican Summer, 2011). Daí a sensação de relativo desapontamento.


© Gustavo Sampaio
· 27 Set 2012 · 01:10 ·
Gustavo Sampaio
gsampaio@hotmail.com

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