Destroyer
MusicBox, Lisboa
17 Jul 2012
São 23h59 e ainda estou na Rua do Ouro, espero que o concerto não comece a horas, nunca consigo chegar a nada a tempo e horas, mantenho o passo acelerado, chego ao Cais do Sodré, passo à porta do Viking e encontro a Joana e o Bruno ali ao lado, à porta da Casa Conveniente, beijinhos e aperto de mão, já não os via há meses mas não vai ser hoje que vamos pôr a conversa em dia, digo-lhes que estou atrasado para um concerto, temos de combinar uma dia destes, não vou ficar chateado com o Bruno só porque ele não quis voltar a jogar à bola connosco só porque se lesionou e passou três meses a andar de canadianas, sigo para debaixo da ponte, lá em cima a Rua do Alecrim, chego à porta do MusicBox, o segurança olha para mim de cima a baixo, digo-lhe que tenho o nome está na lista, ele confirma que o nome está na lista, fuck yeah, são 00:10 e estou a entrar, passo a mão no cabelo para garantir que a poupa continua estável, posso finalmente respirar, ainda não há música, é uma das noites mais quentes do ano e a sala está cheiíssima, tento aproximar-me um pouco do palco, sem sucesso, percebo desde logo que vou ver o concerto com a mediação de um mar de cabeças, vou ao bar, peço uma Heineken, uma daquelas garrafas metálicas mega-fresquinhas, expostas dentro daqueles frigoríficos-montra transparentes, dizem-me que não estão frescas, fraude, fico-me pela imperial normal, OK, não faz mal, volto para o meio do povo, o concerto começa, a banda arranca com aquele som portentoso, que não é só rock, umas guitarras, baixo e bateria, há trompete e saxofone que fazem toda a diferença, são eles que enchem o som do grupo, navegam sobre e ao lado das linhas melódicas, reforçando-as, acrescentado-lhes intensidade emotiva que nenhum riff consegue evocar, resumidamente: partem tudo, chega a voz de Dan Bejar e aquilo tudo faz sentido, pequenas canções pop-rock que em poucos minutos parece nos dão a ilusão que se transformam em coisinhas semi-épicas, numa espécie de Arcade Fire antes de Arcade Fire, menos fogo de artifício, mais direito à alma, eles são os Destroyer, andam por aí desde meados dos anos noventa, quase vinte anos, porra, só em 2004 é que os fiquei a conhecer, aquele magnífico Your Blues e um hino que ficou durante estes anos todos, “The Music Lovers”, que passou ao lado do alinhamento, já tinha visto no setlist.fm que raramente a tocavam mas com estas coisas nunca se sabe, o que se sabe é que foi um disco do ano passado que lhes trouxe a aclamação universal, o disco chamava-se Kaputt e era brilhante, pop sofisticada, canções refinadas, fórmula aprimorada, meia dúzia de coisas inesquecíveis, canções que passaram pela sala do Cais do Sodré para alegria do muito povo, “Chinatown”, “Song for America”, “Kaputt” (melhor vídeo dos últimos anos, sim), músicas que vão confirmando que estamos perante um concerto incrível, passa por mim um amigo, "estes gajos são tão bons, foda-se", o concerto só não é perfeito porque há uns quantos otários que resolvem fumar num espaço fechado, não arejado, na noite mais quente do ano, numa sala esgotada, a meio do concerto há pessoas que nos fazem descrentes na inteligência da humanidade, mas voltamos a atenção ao palco e tudo passa, os riffs esbatem-se nas linhas turvas do trompete, na voz de Bejar, cabeludo, barbudo, desleixado, camisa desfraldada, wasting your days, chasing some girls, alright, chasing cocaine, through the backrooms of the world all night, trompete furioso, trompete que navega ao lado da linha da canção, provocando-a, mas prefere nunca explodir, numa estratégia de sedução infinita, adiando o ansiado momento do clímax, uma música que é um desafio que é uma tensão, all sounds like a dream to me, tudo soa como se fosse um sonho, mas não foi, foi só um concerto do caralho.
· 21 Jul 2012 · 16:47 ·
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

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