Josh T. Pearson
Teatro Maria Matos, Lisboa
22 Jun 2012
“Are You Experienced?”, perguntou, há mais de 40 anos, Jimi Hendrix. Lift To Experience, chamou há mais de 10 anos, Josh T. Pearson à sua banda. Experimentar. Muito. Muito poucas vezes agradável. Aquilo que gerou “Last Of The Country Gentlemen”, o disco que fez de Josh T. Pearson um dos renascidos de 2011. Algo como aquilo que John Grant havia sido em 2010. Mas sem músicas sobre lojas de doces. Grant enfeitiçou o Olga Cadaval em Sintra. Pearson apareceu num local mais escuro, mais solitário. Sem ver quem estava à sua frente (pediu mesmo que acendessem as luzes para saber se estava lá alguém), sem ter mais nada no palco excepto um microfone e um fio para ligar à sua semi-acústica. Pronto a transmitir algo que é muitas vezes difícil. Ou a respiração prende, ou algo falhou.

© Luís Martins

Há um paradoxo curioso na música. Dizem que a tristeza é mais fácil de representar em disco, e talvez o seja. Mas ao vivo é muito mais fácil ser eufórico e sorridente. O que é triste e pesaroso só resulta verdadeiramente quando nos prendemos à palavra seguinte, ao invés de bocejarmos à espera que acabe. Pearson não traz a tarefa facilitada. As canções de “Last Of The Country Gentleman” são bem longas. Têm refrões, mas nada que faça antever uma qualquer influência de Katy Perry. É com total mérito que, dotado somente de uma voz enraizada na tradição mais pungente e melancólica do Sul norte-americano, que ressoa pelo auditório, e de uma guitarra dedilhada mais ou menos rápido, mais ou menos forte, nos leva a todos a afogar mágoas que, a princípio, nem sequer eram nossas. Cerre-se os olhos, e Pearson parece adquirir um brilho angelical por entre a luz que aponta ao palco. Abra-se os ouvidos, e o “anjo” conta piadas e assume gostar de sexo oral. Abra-se-los ainda mais, e é como se estivéssemos no banco do pendura, a guiar por uma estrada secundária de terra batida, prestes a chegar a um bar esquecido, ou a uma casa deserta. Local onde seremos bem recebidos, mas que não esconde o que ficou do lado de lá da porta.

© Luís Martins

Pearson conta anedotas. Várias. São para aliviar a dôr, confessa. Acreditamos fielmente naquela figura de longa barba, alta, forte, vestida de negro, com um crânio de vaca desenhado na fivela do cinto. Recorda a visita anterior aquando do Mexefest. Passa por “Sweetheart, I Ain’t Your Christ”, “Country Dumb”, “Woman When I’ve Raised Hell”. Não engasga, não sufoca. Parece saber que a sobrevivência das suas frágeis canções depende de manter sempre a pressão e temperatura controladas. Mas nós, os que o ouvimos, não conhecemos o ponto certo de regulação à partida. Nem esse ponto é sempre igual. Josh manobra com a precisão de um campeão de jogos de consola. Aplausos fortes fazem-se ouvir entre cada música, antes do encore e no fim de tudo, já com as luzes novamente acesas. Não foi o dia da comunhão solene. Não foi a missa negra. Não foi nenhuma sessão de auto-indulgência. Foi algo que ofuscou, enfeitiçou e fez estremecer. Josh T. Pearson: A grandeza, nesta noite, teve-o como sinónimo.

© Luís Martins
· 24 Jun 2012 · 23:59 ·
Nuno Proença
nunoproenca@gmail.com

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