Elysian Fields
Musicbox, Lisboa
15 Mar 2011
Pedro e os Lobos abrem a noite, em formato de duo, perante uma sala pouco mais do que vazia. O dia bastante chuvoso pode ter sido uma espécie de bênção neste Inverno de seca extrema ou severa, mas terá afugentado bastante gente do concerto. Tocam meia dúzia de temas do álbum de estreia – como “É Só Um Momento” ou “Vou Para Sul” –, construídos pela guitarra de inspiração norte-americana de Pedro Galhoz e a voz de Patrícia Andrade, que ora canta o amor e suas fragilidades, ora viaja pelo espaço e pela imaginação. Antes de tocarem o inédito “Um Mundo Quase Perfeito”, Pedro Galhoz recebe os aplausos comentando «De repente, até parece que somos muitos...»

Pedro e os Lobos © Mauro Mota

Quem enche a sala (já não vazia, mas pouco mais do que composta) com a sua presença é Jennifer Charles, que transcende a beleza plástica, convencional. Tem um “je ne sais quoi” e uma expressão corporal (sensualidade da ponta dos dedos dos pés, enfiados em saltos altos encarnados, à ponta dos cabelos escuros) puramente magnéticos. Aquilo a que se costuma chamar pinta e que dá ponta à maioria dos homens – e a algumas mulheres, também. Nem de propósito, abrem com “Lions In The Storm” após uma tempestade europeia em que os leões (primeiro os de San Mamés e depois os de Alvalade) varreram os colossos de Manchester do mapa. O alinhamento incide principalmente no mais recente Last Night On Earth – só o facto de se viverem tempos de histerismo mediático no universo musical explica que este disco lançado em 2011 tenha passado meio despercebido. “Can’t Tell My Friends” é puro mel com pingos de malícia a escorrerem dos lábios vermelhos de Jennifer Charles, que dança como uma gata ao sabor dos acordes tocados por Oren Bloedow. Em “Church Of The Holy Family”, a metade masculina da dupla (a restante banda, que os acompanhara nas outras datas europeias, não veio com eles) troca a guitarra eléctrica pelas teclas para um momento cheio de beleza, durante o qual as notas do piano se entrelaçam com o canto doce (mas ao mesmo tempo desafiador) de Jennifer, que é dona duma vozes mais expressivas da pop – ou noir rock, se quiserem – actual. Um pouco mais tarde é altura de Oren Bloedow pegar na acústica para tocar “Sleepover”, que surge em jeito de canção de embalar com um twist inquietante.

Elysian Fields © Mauro Mota

É fácil perceber que os Elysian Fields são aquilo que se costuma chamar banda de culto. «Para uma imensa minoria», como no slogan da saudosa XFM. O público acompanha o concerto com um misto de reverência (presente na contenção durante os temas) e euforia, revelada no final de algumas músicas. Uma dessas situações verifica-se no final de “Red Riding Hood” – o primeiro single de Last Night On Earth –, numa versão necessariamente diferente da gravada em estúdio, como acontece, de resto, com boa parte das canções apresentadas. Menos densa e ameaçadora, mas ainda assim com o jogo de espelhos entre a Capuchinho Jennifer e o Lobo Oren, que subvertem o popular conto infantil. Antes do encore – que fechou com uma versão para “The Beautiful Ones”, de Prince –, o tema-título “Last Night On Earth” será o momento mais etéreo da noite, com Oren Bloedow a lançar-nos para o cosmos através dum longo solo de guitarra, enquanto Jennifer marca o ritmo na pandeireta. Aqui, como ao longo do concerto, é patente o encaixe e química entre ambos, espécie de Yin e Yang, sendo JC uma performer à antiga e OB um músico cheio de alma e talento, que dá às canções o que elas pedem, sem necessidade de exibicionismos estéreis. O protagonismo vai para as beautiful ones, acima de tudo.

Elysian Fields © Mauro Mota
· 18 Mar 2012 · 20:00 ·
Hugo Rocha Pereira
hrochapereira@bodyspace.net

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