Primitive Reason
TMN Ao Vivo, Lisboa
22 Dez 2011
Quando uma banda que ajudou a desenhar uma época, conquistando uma base sólida de fãs, atravessa uma fase de mudanças na formação e faz um pousio discográfico relativamente longo, pontualmente interrompido por um ou outro concerto, o futuro torna-se um enorme ponto de interrogação. No regresso ao activo a química entre os membros ou a sintonia com os novos tempos pode ter-se esfumado algures. Era, pois, com curiosidade que se esperava o que iria sair deste concerto (antes da banda entrar em palco havia quem trocasse memórias da última vez em que os tinha visto tocar, em ocasiões mais ou menos longínquas) e, principalmente, de Power To The People, sexto longa-duração da banda de Guillermo de Llera e cia., com lançamento previsto para o primeiro trimestre de 2012.

© Mauro Mota

Após cânticos tribais, entram a matar com “Kindian”, e a banda parece nunca ter parado de ensaiar, lançar discos e tocar ao vivo. A música, forte e certeira, tem momentos de pura descarga e alturas em que o groove rola, apoiado por uma linha de baixo irresistível. De seguida Guillermo avança para o cowbell para introduzir “Shadow Man”, de travo afrobeat – o vocalista e Abel assumem o maior protagonismo em palco enquanto Rui Travasso dá toques de saxofone – antes de se erguer uma tremenda parede sonora, como um tsunami que avança terra adentro de forma impiedosa. Após as rajadas fulminantes de “Sage” chega a primeira malha do futuro álbum. “Seeds Among Rain” é acompanhada por projecções em que o mar embate nas rochas, desfazendo-se em mantos brancos, homens que mergulham nas águas e baleias que se divertem aos saltos, num cenário perfeito para o equilíbrio de forças que se deseja para Power To The People. Por alturas de “Hipócrita” já está tudo aos pulos, fãs de primeira geração e jovens que nessa altura ainda imploravam às mães que lhes comprassem cds do Iran Costa.

© Mauro Mota

O primeiro convidado a entrar em cena é Nuno Gomes (não o ex-camisa 21 do Glorioso, mas o vocalista que chegou a dar alguns concertos com eles), para cantar “Object” enquanto Guillermo filma o que se passa no palco e fora dele, visivelmente agradado por estar de volta ao activo perante uma sala bem composta. Também passariam pelo palco Sérgio Gaspar (para dar um cunho pessoal à incontornável “Seven Fingered Friend”) e James Beja, que em “Bobo Grey” – primeira música do encore, que incluiu também a bastante free & furious “Born From Fear”, com direito a slam dance junto ao palco – acompanhou em ritmo frenético a guitarra nervosa do irmão. O concerto prossegue, percorrendo o livro de estilos da banda. Rock? Ska? Étnico? Metal? Reggae? Dub? O forte dos Primitive Reason continua a ser a fusão, um espírito iconoclasta na moldagem do som. A harmonização de groove com riffs que provocam rachas na paredes, em transições rítmicas que transformam cada música num mundo em redor do qual tanto dançamos como entramos em modo headbanger. Foi com esta linha, entre o incendiário, a descontracção e a festa, que ganharam o estatuto de banda de culto – e que faz com que o seu som continue a ser relevante nestes tempos em que devemos cerrar os dentes (em vez de passarmos os dias em lamentações) mas procurando sempre desfrutar do bom que temos à mão.

© Mauro Mota

Entre clássicos, muitos deles tocados com subtis mudanças de arranjos (um dos momentos mais altos do concerto dá-se entre “The Mighty Alrighty” e “Wanea”, espécie de transe transformado em círculo de fogo acompanhado pelas palmas, os riffs de guitarra e os trovões lançados pela bateria), avançaram ainda mais dois temas inéditos: se durante “Won´t Come Up Clean” atravessamos túneis e voamos acima das nuvens, com o poder dos cinco elementos a chegar através dos instrumentos, “Walk Inside” mantém a tensão entre o peso do rock e a dormência do dub, repartida pelos riffs de guitarra e as linhas de baixo. Reviram a matéria, fizeram-se acompanhar por ex-compagnons de route e começaram a desenhar o futuro, em contornos que deixam água na boca para quem gosta do que fazem - haters will still be haters in 2012. Quando estavam em altas havia o Armazém F, que entretanto levou o nome de um gigante das telecomunicações móveis. Foi como se os Primitive Reason tivessem dito Até já! e regressassem agora com novo fôlego mas de princípios intocáveis.

© Mauro Mota
· 23 Dez 2011 · 23:08 ·
Hugo Rocha Pereira
hrochapereira@bodyspace.net

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