Wolf Eyes
Teatro Passos Manuel, Porto
21 Jun 2005

O ano que corre está a ser bastante prolífico no que diz respeito a concertos de algumas das mais relevantes bandas do panorama musical dito mais alternativo. Às estreias dos Jackie-O Motherfucker e dos Black Dice há agora que juntar os concertos dos Wolf Eyes e esperar que as coisas continuem a fluir deste modo. Mas a estreia dos Wolf Eyes por Portugal aconteceu envolta numa realidade diferente daquela que os rodeava há meia dúzia de anos. Depois do lançamento de Burned Mind em 2004 com o selo Sub Pop, a exposição dos Wolf Eyes sofreu significativas alterações. E daí, talvez sejam mais do que significativas, pois uma capa na Wire nestas coisas tem o peso que se sabe. Se outros exemplos são necessários para que se perceba que a notoriedade dos Wolf Eyes está em alta, talvez não seja má ideia referir que Anthony Braxton, num festival na Suécia em que ambos os nomes marcavam presença, comprou todo o merchandise dos Wolf Eyes existente na banca.

© Ana Sofia Marques

Contextualizações à parte, Aaron Dilloway, John Olson e Nate Young subiram ao palco para que o concerto não começasse, ou seja, para surpresa de muitos, os Wolf Eyes iniciaram a noite com uma espécie de espectáculo stand up comedy - regado com algum masoquismo e humor negro – que teve como ponto alto uma adivinha que, depois de devidamente resolvida, provocou gargalhada geral: “What has nine arms and sucks?”. Os Def Leppard, pois claro. Mas o humor lá teve o seu fim, para que entrássemos numa esfera onde se materializam as reacções provenientes das áreas mais obscuras do cérebro. Pensado como um todo lógico, facilmente se pode dividir o concerto dos Wolf Eyes em três partes. Uma primeira, onde se aventuraram por terrenos mais tranquilos, solos férteis que por vezes pareceram espelhar aquilo que seria Creature Comforts - o último disco dos Black Dice – se os animais que aí vivem se revoltassem e adquirissem a raiva e a liberdade que durante muitos anos lhes haviam negado, ou então as construções ambientais nebulosas e cerradas de uns Sunn 0))). Para tal, utilizaram uma espécie de tubo metálico que trespassava uma base de vidro, um efeito algo semelhante a uma guitarra tocada com arco de violoncelo. O efeito, esse, é hipnótico e perturbador.

© Ana Sofia Marques

Depois de chegada a bom porto, a primeira construção chegou ao fim e até aí os lugares sentados faziam todo o sentido. Mas depois os Wolf Eyes pediram um aumento do volume e aí ficamos todos a saber o que estava prestes a acontecer. Soube-se naquele momento que a partir dali nada seria igual, que estava prestes a brotar a violência ao mesmo tempo interior e exterior que é reconhecida nos Wolf Eyes. Para alguns, colocar as mãos nos ouvidos tornou-se a opção mais óbvia, mas para outros aquele era o concretizar das promessas que se fazem nos discos. A exploração do ruído tornou-se, a partir daquele momento, o propósito maior dos Wolf Eyes. Exploração que teve no encore um acréscimo significativo de intensidade (curioso como os Wolf Eyes encaram as suas composições como sendo “canções”). Na terceira e última parte do concerto, foi vê-los em fusão explosiva de todos os seus elementos, com especial relevo para o noise. Mas para que fique provada a abrangência da esfera musical dos Wolf – como se ainda restassem dúvidas – diga-se que não faltaram elementos de electrónica, rasgos hardcore, instrumentos de sopro, pratos e até um instrumento aparentemente feito de madeira com apenas uma corda (os Wolf Eyes costumam ser bastante inventivos no que diz respeito à criação de instrumentos). Ao deixarem o palco, a banda deixou também o convite: “Let’s drink some beers”. Mas o verdadeiro desafio já havia sido ultrapassado. E com máxima distinção.

· 21 Jun 2005 · 08:00 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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