Milhões de Festa
Barcelos
22-44 Jul 2011

© Angela Costa

E ao terceiro dia a adrenalina surge outra vez porque há que queimar os últimos cartuchos antes de sair de Barcelos. Por esta altura já há imensos escaldões e músculos doridos, mas que se foda: há que acabar em grande. Assim se esgota a lotação da piscina pelo terceiro dia consecutivo (e desta vez com uma fila *ainda* maior), se provam os últimos mojitos e se fazem os últimos planos no que toca aos concertos do dia. Como que a querer confirmar esta despedida, o sol arde com maior intensidade - sem dúvida o mais quente dos três (quatro) dias em Barcelos. Duas das bandas que foram obrigadas a cancelar no dia anterior - as Kim Ki O e os MKRNI - encontraram o seu espaço neste dia, tocando na piscina um pouco mais cedo. Porque se o Milhões promete 74 bandas, o Milhões cumpre com 74 bandas. Salvé. PC

As Kim Ki O colocam-se então debaixo do toldo por volta da uma e meia, duo feminino de baixo e sintetizador que toca uma synthpop bonitinha com traços de verão - ou seja, não terem tocado no Vice até foi bom. Já que a água ainda estava demasiado boa poucos lhes ligaram, mas às meninas de Istambul não se poderia pedir muito mais que não uma mostra decente de background music. PC

Ao terceiro dia o programa de concertos da piscina é completamente alterado. E ainda bem, que assim dá para apanhar ao vivo uma quantidade de coisas boas, enquanto vamos espreitando na piscina outra grande quantidade de coisas boas. Depois de Kim Ki O chegaram os MKRNI, que perderam o avião no dia anterior, mas chegaram a tempo de transformar a zona da piscina numa espécie de pequena Ibiza, conseguindo impor um ambiente dançante (apesar da hora apelar mais à tranquilidade de uma sesta). Seguiram-se os Narwhal, que começaram de forma minimal, com um drone que foi crescendo de forma progressiva até se transformar numa agradável onda sonora. Já os Nazka levaram à piscina um rock desinspirado, que de psicadélico teve pouco – oportunidade para voltar a dar uns mergulhos na piscina, que estava ficando calor. NC

Já ao final da tarde chegaram as Pega Monstro, que levaram ao palco da piscina o seu rock simples, rugoso, directo e naïf. Riffs acesos e bateria tensa, letras incomparáveis: “Ó Bernardino / tu de Fachada não tens nada / porque com essa barba / eu fico molhada”; “Eu fui a um festival / comi pouco, fiquei mal / apanhei uma infecção (...) / e as gajas do Porto são mais giras do que eu”. Estas duas canções ficaram guardadas para o final, acabando por recolher os merecidos aplausos - especialmente “Paredes de Coura”, o hit sem igual, o fecho perfeito. NC

O palco da Lovers & Lollypops era sem dúvida o mais difícil de encontrar e alcançar, especialmente para quem ansiava já por um colchão. No entanto, esta caça ao tesouro foi recompensada com um excelente concerto dos Equations, pós-hardcore portuense, enérgico e agressivo q.b. e dono de malhões como "Running With Scissors" ou "Hero Cities Of The Soviet". Pese a salganhada em palco - cinco pessoas, um porradão de instrumentos e gadgets, houve muito chão onde pisar e até um mini-crowdsurf por parte do vocalista. Não só: Makoto Yagyu e Ricardo Martins deram igualmente uma perninha, assim como um senhor intitulado Bartholomew Faraday, nu da cintura para baixo, o verdadeiro momento rock out with your cock out, presenciado por trinta pessoas e, crê-se, nenhuma objectiva: ou seja, o Milhões de Festa 2011 teve aqui o seu momento mítico. E ninguém, ou quase, sabe ou saberá. PC

Quem abre o palco da Vice é não um, mas dois grupos: os Throes juntam-se aos The Shine e dão um concerto de abanar a anca e o pescoço; chamam a isto rockuduro, e se há quem não tenha visto ou ouvido sequer, há ali uma Videoteca à mão para que percebam que esta colaboração vai dar grandes frutos. E é, naturalmente, um momento mágico para qualquer melómano que procura incessantemente novos sons. A dança foi imprescindível num concerto que peca por ter estado ainda desprovido de algum público - imagine-se o que seria se tivessem tocado mais à noitinha. Tá cuiar! PC

Não vimos os FM Belfast virtude de termos estado ocupados com outros eventos de maior importância, mas ouvimo-los. Os islandeses também procuram meter gente a dançar, e vão buscar influências e samples a todos os lados possíveis - ouviu-se RAtM, ouviu-se a colossal "Pump Up The Jam" dos Technotronic, ouviu-se os grandes Underworld. E terminam com "Welcome To The Jungle". Classe. PC

Já toda a gente deve saber que os Papa Topo são a banda mais fofa da Península Ibérica. Toda a gente sabia menos o técnico de som, que se esqueceu de ligar o microfone de Adrià e deixou a doce Paulita a cantar sozinha. Apesar do som imperfeito, Paulita e Adrià (e com o auxílio de outro rapaz) superaram as dificuldades e mostraram em Barcelos uma série de canções originais (sobre temas interessantes como sexo no cinema), além de ter havido ainda espaço para uma revisão de “Ça Plane Pour Moi” de Plastic Bertrand. Para o final ficaram guardados os temas mais conhecidos, os deliciosos “Oso Panda” e “Lo que me gusta del verano es poder tomar helado” (justamente aplaudidos), fechando com a nova “La chica vampira”. Apesar das dificuldades, a dupla sobreviveu e representou condignamente o twee-pop espanhol – ou, nas palavras de um certo crítico pontualmente palerma, a “childwave”. A papatopomania está a crescer. NC

We Trust anda a correr pelas bocas do mundo desde que "Time (Better Not Stop)" foi escolhida por Hugo Boss para uma das suas playlists. André Tentúgal apresentou-se rodeado de vários outros músicos que o ajudaram a concretizar a sua pop de onda Air-iana (sem nazismos, p.f.), canções ternas e contemplativas onde a melodia é quem mais ordena. Destaca-se a colaboração dos Dear Telephone e, claro, aquela música. Estreia magnífica e um lugar merecidíssimo no palco principal. PC

We Trust © Angela Costa

Os Green Machine quiseram ser enterrados no Milhões de Festa, e antes disso encheram o secundário de caos rock n´roll e com a energia inesgotável do vocalista João Pimenta. Aqueles que, diz-se, inspiraram outros barcelenses a sair do tédio e a fazer coisas, despediram-se com malhas como "Tales From An Expectant Pussylicker", referências a Screamin´ Jay Hawkins (outro dos grandes), e com uma mega-promoção em que um EP, um disco e uma t-shirt custava apenas três euros - o que posteriormente levou a uma fila imensa na barraca do merch. Não só foram o melhor concerto do dia, por tudo associado, como foram um bofetão de mão fechada nos idiotas que diziam que o Milhões de Festa só levava bandas portuguesas porque são amiguinhos. Não: levam-nos porque têm qualidade. Muita. Green Machine is fucking dead! PC

Green Machine © Angela Costa

Regressadas ao activo, e regressadas ao Norte de Portugal depois da passagem por Coura em 2007, as Electrelane mostraram no Milhões a sua muralha de guitarras. Não faltaram temas clássicos como “On Parade” e “If not now, when?”, emulando ao vivo o som típico dos discos: guitarras tensas quase em rebentamento, pontuais apontamentos nervosos no piano. Esta actuação foi ainda marcada pelas covers, que o quarteto interpretou sem medos nem preconceitos: a boa/estranha “Smalltown boy” (Bronski Beat), a épica “The Partisan” (Leonard Cohen) e, já no encore, a incendiária “I´m on fire” (Bruce Springsteen) – não se podia pedir melhor final. NC

Electrelane © Angela Costa

Star Slinger é dono de um disco enorme - com o simples nome Volume 1 - e pôs todos a dançar ao som do beat um hip-hop estranho e psicadélico que vai buscar samples ao r&b para dar substância; não faltaram temas como "Mornin´", "Pass The Dutchie" e uma remix de "Out Getting Ribs", de Zoo Kid, para fazer mexer todos os que lá se encontravam. Belíssimo concerto, e é sempre bonito ver a malta do rock e do metal a apreciar um bom ritmo electrónico. PC

Washed Out estreou-se em Portugal com o novo Within And Without na bagagem, mas acabou por dar um concerto algo morno, mas bom o suficiente. Assim como We Trust, solicitou ajuda a outros músicos. "Amor Fati", claro, foi a canção melhor recebida pelo público, que encheu aquele espaço do recinto mesmo em frente do palco para ver como alguém tenta superar o rótulo chillwave. Ao vivo as suas prestações são mais elaboradas e com menos cabeça na lo-fi, mas a cultura retro anos 80 está omnipresente. A synthpop versão Washed Out tem pernas para andar, mas falta-lhe qualquer coisa para ser imperdível ao vivo. PC

Washed Out © Angela Costa

Os Foot Village acabaram por ser outra das grandes surpresas deste festival: são quatro, em círculo, todos bateristas, e estão sempre a rasgar com um ritmo tribal e entusiasmante, uns Boredoms mais crus e muito mais espasmódicos, completos com uma menina asiática de calção de dar asas à imaginação. Completam-no com pequenos pózinhos electrónicos e o tradicional grito hardcore, mas é mesmo a sua energia na percussão que obriga ao mosh. Um dos melhores concertos do festival, ainda mais para quem não os conhecia. PC

Os Radio Moscow parecem ter vindo para humilhar as grandes bandas nacionais de rock que passaram pelos palcos nos dias anteriores. Nas suas mãos o riff é constante e nenhum acorde é desperdiçado, o baixo tem um groove imenso e a bateria faz mover corações e coloca cornos no ar. O seu blues pesado andou tanto pelo disco homónimo como por Brain Cycles, bojardas rock n´roll a levar (e a elogiar) a loucura. Quase como que a querer mostrar a alguém néscio que os Led Zeppelin foram de facto a melhor banda do mundo. E terminam com um encore absurdamente inacreditável, juntamente com a promessa de cá voltar ainda este ano. Depois deles os dois últimos concertos nem interessaram para nada. PC

Termina assim o Milhões de Festa. Um evento maior que as nossas vidas. É exagero? Não se sabe; tem de se lá ter estado para o poder dizer sem ponta de mácula. E é por aí que uma melancolia imensa se apodera de nós quando o campismo começa a esvaziar e as tendas precisam de ser arrumadas, os amigos se despedem e Barcelos não é mais que uma memória viva. E existe, com certeza que existe, a percepção de que andámos em cima de uma onda gigante que acaba de embater na costa, e o mar regressa à acalmia do costume. Acaba por conter em si uma estranha bipolaridade: é demasiado curto para que nos acabe com a fome, mas é demasiado grande para que não nos sintamos satisfeitos sempre. Cada qual que lá esteve com mais um motivo para sorrir e para ansiar durante os 360 dias que faltam até nova edição. A vida são dois dias, o Milhões são três. PC
· 27 Jul 2011 · 02:10 ·
Paulo Cecílio e Nuno Catarino

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