Aloe Blacc
Aula Magna, Lisboa
4 Mai 2011
Quando a australiana Maya Jupiter entra em cena, vestida de rosa, dirige-se a uma plateia heterogénea – várias gerações e estilos acorreram à Aula Magna para dar as boas-vindas a Aloe Blacc, uma das principais vozes da soul contemporânea e autor de Good Things, um dos álbuns mais aclamados do ano passado. A cantora tem uma figura elegante e uma boa presença em palco (o ponto alto da sua prestação terá passado mesmo por alguns passos de samba), mas a tentativa de fusão de hip hop com funk e reggae soou algo forçada. Meia-dúzia de temas que não ficam na memória.

© Mauro Mota

Para não é esquecer foi o que se viu e – sobretudo – ouviu a seguir. Luzes dançam sob uma sinfonia de cordas e vozes sampladas, e regressam os Grand Scheme, presentes em ambas as partes do concerto. Teclas vintage, metais arrepiantes e ritmos sincopados embrulham um mix de temas de Aloe Blacc, que chega quase no final do inevitável “I Need A Dollar”. Apresenta-se impecavelmente trajado, calças escuras e colete cinza sobre uma camisa azul clara. Vai cantando enquanto desliza pelo palco sob a música envolvente. «Tonight we’re going to get down like the Godfather of Soul, James Brown!» – e vai por aí fora, invocando Stevie Wonder, Marvin Gaye e Al Green, todos eles (very) Good Things. “You Make Me Smile” faz um casal na fila da frente olhar-se nos olhos e abraçar-se com força, gesto que é replicado um pouco por toda a sala, num momento de amor colectivo.

© Mauro Mota

É este o poder de Aloe Blacc. Conciliar o romantismo com um olhar acutilante sobre o que o rodeia. Como Marvin Gaye, por exemplo, fazia de forma ímpar. Canta o amor e depois fala da crise económica internacional (revelando conhecimento da situação difícil que Portugal atravessa), introduzindo “Miss Fortune”. Feita a ponte do pessoal para o social, segue-se “Life So Hard”, cuja intro diz que a chave para tudo nos EUA é o dinheiro, para alguns a raiz de todo o mal. A temática literária muda, a sonoridade pode ir vogando pelas águas (mais calmas ou mais agitadas) da soul, do funk e do r&b, mas dentro do embrulho continua uma voz doce como um rebuçado, que de seguida entoa “Take Me Back” com um feeling de cortar a respiração. “Politicians”, acompanhada de gestos sugestivos, ancora-se num ritmo que cresce a cada refrão certeiro e “I Need A Dollar” é o esperado êxtase, a cereja em cima do bolo, o açúcar na limonada. Toda a sala de pé, a rimar contra a maré negra da crise económica, social e política. A força da música passa muito por esta sublimação das dores colectivas e individuais, não é?

© Mauro Mota

«Do you have SOUL?», lança; e é como se perguntasse a náufragos se querem ser resgatados do alto-mar. O concerto ameaça terminar como começou, os Grand Scheme fechando o círculo com um excerto instrumental de “I Need A Dollar”. Pouco depois da saída da banda, Maya Jupiter - que cantaria a seguir uma música com o protagonista da noite - regressa ao palco, revelando que Aloe Blacc estará em Portugal no dia 28 de Julho, no Cool Jazz Fest, notícia muito bem acolhida por quem (não) foi à Aula Magna. No encore ainda há tempo para “Billie Jean”, numa versão insinuante do clássico do antigo Rei da Pop, e “Loving You Is Killing Me”. Mas o amor, para Aloe Blacc, é uma força muito mais criadora do que destrutiva, tal como este concerto foi aglutinador de um público unido pelo afecto a um cantor em ascensão. O talento está lá; os dólares esperam por Aloe Blacc.
· 05 Mai 2011 · 22:28 ·
Hugo Rocha Pereira
hrochapereira@bodyspace.net

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