B Fachada
Teatro Maria Matos, Lisboa
4 Abr 2011
Sozinho em palco, camisa rosa acetinada, Fachada senta-se ao piano e aborda “Os índios da Meia Praia”, um dos muitos hinos do genial Zeca Afonso, numa versão despida, transformada em balada. Soa inesperada, de início; lá para o fim percebemos que encaixa na perfeição. É o arranque de um concerto que tem por objectivo apresentar o mais recente disco de B Fachada, É pra meninos, mas logo após este início desconcertante ficámos a saber que o concerto não se ficará por aí.

© Luís Martins

Entra a banda: Francisca “Minta” Cortesão (piano, guitarra e voz); Martim (baixo/contrabaixo); Mariana (bateria). Com a banda chega então o prometido É pra meninos: “Tozé”, “A Casa do Manel”, “Dia de Natal”, “Questões de Moral”, “Conselhos de Avô” - sequência imparável, quase repetindo a ordem do álbum. Boas interpretações, fiéis à gravação, falham apenas detalhes minúsculos, o sumo está lá todo, a voz é a do costume. Já conhecíamos a eficácia daquelas melodias envolventes, embrulhadas em arranjos concentrados, e é assim que é tudo impecavelmente servido no palco do Maria Matos. Vem então “Primeiro Dia”, com o destaque para a voz de Francisca Cortesão, canção perfeita sobre a desilusão precoce. Fecha-se o ciclo das canções de embalar com o arrastado “Agosto”.

© Luís Martins

Após aquela sequência infantil Fachada quebra o ritmo. Entram “Estar à espera ou procurar” e “Tempo para cantar”, dois dos momentos maiores do disco homónimo 2009 - convenientemente aplaudidos. Há um regresso pontual à infância com “Barrigão” (aqui sem Lula Pena, que tinha actuado na noite anterior). E para o final oficial fica guardada a passagem pelo épico Há festa na moradia, com “Memórias de Paco Forcado, Vol. I”, subversiva recuperação da canção de intervenção, antes da euforia dos Homens da Luta – aquele final “eu vou ser o puto Abrantes, eu vou ser o Panda Bear” merecia ser cantado pelo público aos berros.

No encore há nova viagem ao passado recente: “Só te falta seres mulher”, de novo sozinho em palco, de volta ao piano; e “Kit de prestidigitação” com direito a engano na letra. Após uma ovação em pé Fachada é obrigado a voltar para um segundo encore - desta vez com um tema novo, uma balada bonita (e um novo engano pelo meio). Depois de quatro concertos consecutivos durante um fim-de-semana - dois p'ra miúdos, dois p'ra graúdos – percebe-se o natural cansaço. Uma hora e uns pozinhos é pouco tempo para quem tem tanta coisa para cantar. Sobra-lhe tempo para descansar, que também merece.
· 05 Abr 2011 · 18:00 ·
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

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