Caribou
Lux, Lisboa
13 Dez 2010
Quando as expectativas são demasiado elevadas, no limiar da ansiedade, o mais natural é que culminem numa relativa decepção. O concerto de Caribou, segunda-feira 13, no lisboeta Lux, foi a excepção que tenderá a confirmar a regra. Ainda que bastasse a Dan Snaith e companhia canadiana fazerem rodar todas as faixas de Swim (2010), consagrado como um dos melhores discos do ano, não deixaram porém de explorar novos trilhos criativos, dando largas à imaginação espontânea, concentrando alguns êxitos no tempo e prolongando outros no espaço até ao cume artístico da improvisação, sob dialéctica baixo-bateria, por vezes citando A Certain Ratio, ou os contemporâneos The Juan Maclean da emblemática DFA de James Murphy, mais alguns ecos de Beach Boys pós-sintetizadores ou, porque não, pózinhos de Manitoba, em auto-referência, porque há mais história para além, ou aquém, deste último disco, ora cuja versão de remisturas acaba de ser editada, com releituras de Fuck Buttons, Junior Boys (seus conterrâneos), DJ Koze, Gavin Russom (mais uma ponte com a DFA), entre outros, e também por isso era o momento mais do que perfeito para o último concerto do ano de Caribou, o 175º, pois o hype, ao contrário dos carteiros de James M. Cain, raramente toca duas vezes, ou pelo menos não à mesma porta de estúdio.

© Joana Cardoso

Pareceram de facto cansados, quase exaustos, física e psicologicamente, daí terem tocado apenas durante uma horita, mais um tema de dez minutos, a encher chouriços, num único encore de serviços mínimos garantidos. Mas nem por isso deixou de valer a pena este concerto que revelou uma outra roupagem sonora de Caribou, a de palco, mais instrumental e "do it yourself" (sem recorrer sistematicamente às muletas dos samples, playback, programas de computador, etc.), confirmando que não se trata apenas de um hype de Verão, como aliás já sabiam todos aqueles que os acompanham desde o gérmen Manitoba, ou mais recentemente desde a metamorfose identitária processada em The Milk of Human Kindness (2005).

© Joana Cardoso

Numa época tradicionalmente pautada por balanços, listagens e afins, serviu portanto para desmontar quaisquer dúvidas que ainda restassem sobre o génio inventivo de Snaith, que não se transformou muito desde que reparámos nele numa das compilações Dirty Diamonds, os discos-oráculo da Diamond Traxx, apenas direccionou a electrónica ambiental, intimista, de pequenos e deliciosos detalhes de produção, para as pistas de dança, com um pouco mais de músculo reverberativo (algumas das batidas de segunda-feira faziam cócegas nos tímpanos) e refrões orelhudos sobre desamores malandros que nos fazem submergir bem lá no fundo do oceano melancólico e redentor de "Odessa", "Sun", "Kaili", "Hannibal", "Jamelia", tudo isto sem precisar de falar muito, que as palavras tantas vezes só atrapalham os ritmos dos sentimentos.
· 14 Dez 2010 · 23:33 ·
Gustavo Sampaio
gsampaio@hotmail.com

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