US Girls / Sun Araw / Scout Niblett
Galeria Zé Dos Bois, Lisboa
05 Nov 2010
Aos dezasseis já falta pouco para sentir noventa e seis. Assim o esperam todos aqueles que de uma maneira ou de outra guardam memórias marcantes da Galeria Zé dos Bois, espaço que se tornou local de culto entre uma população ávida de excelentes concertos e/ou eventos culturais - não só lisboeta, o que seria extremamente redutor, mas nacional. Mesmo tendo a noção de que é má educação dar maior ênfase aos convidados que ao aniversariante, a ocasião assim o obriga. À ZdB, fica não só uma mensagem de parabéns, mas algo ainda maior: um Obrigado.

US Girls © Vera Marmelo

Coube a Megan Remy, que é uma só mas vai pelo nome US Girls, apagar a primeira vela. Para fazer a festa basta-lhe uma caixa de ritmos e um som distorcido até às entranhas, como se os nossos velhos Casios de brincar fossem trucidados por um Transformer enraivecido. Navega algures entre as águas do chillwave mas à vertente da pop de baixo custo adiciona ainda valentes descargas de ruído. De uma actuação de meia hora ou pouco menos, será sensato retirar que foi um bom aquecimento para o que se seguiu quando em plena noite de Novembro faziam 21 graus? Não interessa. Foi uma bela entrada. E belas ancas.

Sun Araw © Vera Marmelo

Aos Sun Araw já se chamou de tudo. Pós-pop, trip caribenha, sandalgaze (ok, esta última só no last.fm). Se Cameron Stallone fosse Alex Ross, o ruído não seria o resto, mas tudo. A verdade é que não há paralelo no seu psicadelismo, mistura de Dave Grohl com Bobby Gillespie (no aspecto físico e, porque não, num confronto imaginário entre Foo Fighters e Screamadelica), que ora se entretém a pintar paisagens cósmicas com um sintetizador, ora puxa da guitarra um riff de outra galáxia, ele que até acredita na teoria dos astronautas antigos. Isto entre linhas dub capaz de fazer tremer o próprio Lee Perry. Mas isto (ainda) é só o início. A sua capacidade de fazer sonhar há-de fazer correr muita tinta.

Scout Niblett © Vera Marmelo

...E depois há Scout Niblett, que por si só conseguiu roubar a multidão aos bolos que se iam oferecendo aqui e ali e encher o aquário de fãs ansiosos por ouvi-la, ela que é bem capaz de ser a última memória da energia grunge. Com The Calcination of Scout Niblett ainda no ouvido (e é um excelente disco, ide ouvi-lo já), Miss Niblett mostrou uma vez mais que da alma de uma mulher também pode sair bom rock n' roll, e que nas suas mãos uma guitarra cheira tanto a gasolina como qualquer outra. Tal é o caso em "Cherry Cheek Bomb", saída deste último disco, em que de um momento mais íntimo passamos para um riff poderoso e ensurdecedor. Nem as comparações com Shellac (houve mesmo alguém que, após Niblett ter perguntado se havia pedidos, se saiu com um hilariante "The End Of Radio"), usadas para atar o minimalismo de Niblett ao de Steve Albini, a retirarão do pódio. Noite claramente ganha: por ela e pelo público. Resta saber se Niblett estará disponível para estar presente em mais aniversários que não apenas este.
· 08 Nov 2010 · 19:05 ·
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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