Beck
Carling Academy, Glasgow
29 Mai 2005
Se "reciclar" parece ser um verbo sobreusado mas apropriado para sintetizar a música que se ouve nos álbuns de Beck desde Golden Feeling, o verbo "electrificar", a anexar ao "reciclar", parece se ajustar na perfeição à experiência em palco do artista norte-americano por alturas da apresentação de Guero.
Beck gosta de rupturas e a electricidade, embora nunca perdida, parece servir-lhe como belo contraponto à tranquilidade e à acidez de “Sea Change”. Quando entra em palco, ao som de uma batida techno, para a desvirtuar com uma guitarra emprestada por Thurston Moore, surge o primeiro indício da vontade de Beck, neste momento, querer fazer muito barulho e, à imagem do que fez por alturas de Odelay e de Midnight Vultures, fazê-lo sobre duas mãos cheias de lápis de cera de cores variadas – funk, hip hop, r’n’b, bossanova, blues, pop, folk, electro, rock e uma cor indefinida (dêem-lhe um nome, se quiserem).

Com Beck em palco, há uma manta de retalhos erguida até onde o seu braço o consegue fazer, por uma guitarra eléctrica em chamas – se preferirem a imagem de Hendrix a destilar combustível sobre o seu instrumento no século XXI, risquem a anterior. Mesmo que chamuscada, a manta inicial continua a ser bom e digno trabalho de patchwork.
Guero é o centro das atenções na noite de Domingo, mas é “Devils Haircut” que abre o festim. O artista (que por mais “Golden Ages” que toque continua a parecer um puto de dezoito anos) sabe como ser um bom artista (e isso inclui a programação ou, no lado oposto, a introdução do imprevisto na performance), desde logo pelo gatekeeping seguido aquando da escolha dos temas a figurarem num alinhamento de uma hora e meia. Poucos segundos depois do início do concerto, já se sentem, nos corpos vizinhos, uns quantos aceleramentos de ritmos cardíacos ou, então, é apenas o diabo a começar o seu trabalho nocturno numa sala de concertos na cidade cinzenta de Glasgow.
As cerca de duas mil pessoas que por ali se encontram – da menina pré-teen, a acompanhar o pai e o irmão e vestindo uma t-shirt com o nome do mestre das cerimónias escrito por si a letras gordas (a revelar uma paixão precoce pelo “do it yourself”), ao senhor de meia-idade a acompanhar o ritmo de “E-Pro” com sucessivos abanões de cabeça –, parecem folhear, sem grande tempo para discussões e sobretudo com o corpo, o manual que Beck anda a escrever desde os inícios da década passada. Algumas delas parecem ter contribuído para a conversão do adjectivo “loser” em “cool” e, hoje, fazem questão de o lembrar. A perturbar a leitura de “Loser”, que agitou muita gente, só mesmo uma segurança mal-humorada e ruidosa que ameaça tirar uma máquina de filmar a uma jovem, quando esta tira apenas, como muitos na plateia, algumas fotografias numa câmara fotográfica a uma formiga lá ao fundo. Lá atrás, já desfilaram a lição sobre um casal indigente e desventurado que ainda se consegue levantar do chão, num mais eléctrico do que em álbum “Black Tambourine”, ou a analogia da vida a um instrumento musical num canção sobre uma amiga morta em “Broken Drum”, namoro, ao vivo, de um sintetizador em viagem por terrenos do trip-hop com uma guitarra eléctrica a destilar psicadelismo por todos os lados. Já se ouviu a brincadeira feita de r’n’b, electrónica conhecida a bandas sonoras de jogos de computador, funk (a culpa é do baixo) e hip hop em “Hell Yes”. Já foi interrompido a meio um semi-êxito dos primórdios, “Beercan”, aparentemente tocado para satisfazer os saudosistas (para quê?). Enquanto o espectáculo se vai consumindo efemeramente, Beck – acompanhado de uma banda que hoje conta com um jovem de óculos de massa, engravatado e de camisinha branca, dançarino de serviço e segundo foco de atenção (provavelmente uma representação do que a personagem principal gostaria de fazer, se não tivesse a guitarra ao colo durante maior parte da actuação) – exibe, quase sem se aperceber, o retrato da sua família musical (ao centro, os pais Beastie Boys, em cima o avô Bob Dylan, ao seu lado esquerdo os tios Sonic Youth e em baixo os primos afastados Pavement). Mais intencionalmente, com “Send A Message To Her”, parece querer provar como tão facilmente consegue bater os Franz Ferdinand na composição de uma canção para fazer abanar as ancas das meninas.
“Where It’s At” e “Tropicalia” são recebidos com grande euforia, mas é a cena da ceia dos músicos, em pleno palco, que dá lugar à mais interessante (e talvez mais fiel) imagem que se pode ter de Beck. Com uma guitarra acústica ao colo, enquanto o jovem de gravata e fato serve os restantes colegas da escumalha, numa mesa recheada de loiça e de fruta, Beck ensaia breves excertos de canções folk e blues – “My Pants” parece ser a preferida do público - , improvisa, sorri, despreocupa-se, pára quando lhe apetece. Entretanto, já se ouve uma “Golden Age” – a única recuperação de Sea Change – acompanhada de percussão ensaiada na mesa, num prato ou numa peça de fruta, com um garfo ou uma faca. Durante esta cena, o Beck-músico-de-rua, ou aquele livre para lançar um “One Foot In The Grave” quando lhe apetecer, volta à vida e já poucos são os que se preocupam com o facto de ainda não ter tocado o “New Pollution”, o “Mixed Bizness” ou o “Sexx Laws” (não, não os elegeu para esta noite).

Numa sequência rápida (300kms/h, talvez) de três encores curtos mas intensos, Beck vai-se despedindo como tivesse apenas iniciado ali a sua performance. Já fez muito melhor do que “E-Pro”, mas, ao vivo, parece ter nele um potencial agitador de multidões e quando chega a “Que Onda Guero”, o piscar de olho mais descarado na sua carreira à música latina, ou a “Get Real Paid”, muito mais violenta e dançável do que no quadro rosa-choque de “Midnite Vultures”, parece ser tarde, para ele. Porquê? Perguntem-lhe.
· 29 Mai 2005 · 08:00 ·
Tiago Carvalho
tcarvalho@esec.pt

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