Super Bock Super Rock
Meco
16-18 Jul 2010
Fim-de-semana com o morto (no Meco)

Lembram-se dessa pérola cinematográfica dos loucos anos 90? O Festival Super Bock Super Rock, que decorreu entre os dias 16 e 18 de Julho, revelou-se uma espécie de sequela involuntária. Por vezes não queríamos acreditar, mas aquilo estava mesmo a acontecer. «Meco, Sol & Rock n’Roll», ou como o conteúdo tantas vezes não cabe dentro da embalagem fabricada pelo marketing.


A música deveria ser o essencial, mas, dadas as circunstâncias, urge traçar uma perspectiva mais abrangente daquilo que aconteceu no passado fim-de-semana, na Herdade do Cabeço da Flauta, próxima da Aldeia do Meco. O Festival Super Bock Super Rock mudou-se de armas e bagagens para o local onde em tempos, não muito distantes, se realizou o Hype@Meco, paraíso perdido das vanguardas electrónicas transpostas para um idílico e verdejante beira-mar. Ou não tão verdejante quanto isso, pelo menos não ao nível do solo, demasiado arenoso, gerando sufocantes nuvens de pó, de resto tal como sucedera nas primeiras edições do Festival Sudoeste na Zambujeira do Mar (problema minorado através da plantação de vegetação rasteira ao longo dos anos).

Tratando-se da mesma produtora, esperava-se um cenário diferente, só que a Música no Coração apenas interveio no piso da tenda de música electrónica, onde ensaiou uma engenhosa alternativa em cascalho que susteve o pó mas não propiciou a dança. Nos restantes espaços do recinto, tudo na mesma, como a lesma. É difícil compreender como é que não se pensou nisto, tendo em conta a experiência passada: excelentes concertos, momentos tão impagáveis quanto The Matthew Herbert Big Band em grande forma, Rinôçérôse a levantar voo ou Fila Brazillia ao nascer do dia, mas um imenso desconforto causado pelo pó que obrigava a muitas desistências precoces entre os mais incautos espectadores. Para os reincidentes, pura e dura sensação de déjà vu.

Ao que se acresce uma outra repetição tão ou mais incompreensível, a saber, o caos resultante dos parcos acessos rodoviários e escassa capacidade de estacionamento que já se tinha verificado em 2003, aquando da fugaz passagem de um furacão islandês que dá pelo nome de Björk por aquele mesmo local do crime. Com Prince no cartaz e todas estas problemáticas multiplicadas por três (o Hype@Meco cingia-se a uma noite, ao passo que o Super Bock Super Rock se estendeu por três dias), só mesmo o Vítor Constâncio é que não conseguiria prever a tempestade perfeita que viria a eclodir na infausta noite de Domingo (e não consta que este integre o conselho de administração da referida Música no Coração): filas intermináveis de carros, acessos cortados, parques de estacionamento lotados, 5 horas para percorrer os 10-15 quilómetros que distam entre o recinto e as praias mais próximas, centenas de pessoas a deixarem os carros nas bermas das estradas e a fazerem esse mesmo percurso a pé (repetindo-o mais tarde, no final dos concertos), outras centenas a desistirem a meio e a voltarem para trás, vários concertos perdidos (inclusive Prince) sem direito a reembolso monetário, comitivas VIP sob escolta policial a abrirem caminho por entre os meros plebeus, etc.

Mas as queixas dos melómanos não se ficam por aqui, remetendo também para a zona de campismo junto ao recinto. Poupando na adjectivação, as condições eram miseráveis, ou mesmo inaceitáveis, a não ser que a intenção fosse realizar uma bizarra experiência sociológica em que os campistas se sentiriam como os palestinianos que sobrevivem emparedados numa exígua Faixa de Gaza (algumas imagens retidas na memória não deixam de se assemelhar, metaforicamente, às pranchas de Joe Sacco). A sobrelotação foi evidente desde o primeiro dia, com tendas montadas umas por cima das outras, sem corredores de circulação, sem um mínimo de organização, muitas delas nas imediações dos chuveiros e das caixas-de-banho e por isso mesmo vulneráveis aos rios de dejectos que atravessavam todo aquele diminuto e poeirento terreno acidentado, inclinado, carente de sombra e demasiado próximo do palco principal (onde os testes de som tinham início às 9 da matina, logo após as pessoas conseguirem, enfim, adormecer).

Há, no entanto, responsabilidades que não devem ser assacadas à organização, no que respeita à iluminação, ao lixo e à sujidade das caixas-de-banho. Primeiro, não se justifica uma iluminação ao estilo de um centro comercial, tratando-se de um festival de música ao ar livre, associado ao campismo (inclusive campismo selvagem, uma vez que, perante as más condições da zona oficial de campismo, muitos melómanos optaram por montar as tendas noutros sítios não delimitados, especialmente junto a pinheiros mansos que providenciavam, de facto, sombra pela manhã), algo que iria empalidecer todo um céu estrelado de Verão ou aquele ambiente mais especial e intimista junto ao palco secundário (aliás, não houve registo de assaltos). Segundo, trata-se de uma questão de civismo das pessoas. Se colocassem o lixo nos recipientes próprios e tivessem algum respeito pelo utilizador seguinte da caixa-de-banho, decerto que teria sido muito diferente. Os japoneses, por exemplo, chegam a levar cinzeiros portáteis para os festivais, para não deitarem a cinza dos cigarros para o chão. Por aqui é a esterqueira total e depois ainda culpam a organização por não ter um empregado para cada campista (a apanhar o lixo e a limpar o que este alegremente deita fora e suja).


Abertura plena de soul

E agora sim, o essencial, a música. As hostilidades foram abertas por Jamie Lidell na tarde de sexta-feira, com um enérgico concerto que terá sido perdido por muitos que não conseguiram chegar a tempo e horas (nem todos podemos sair mais cedo do trabalho à sexta-feira). Escasso público para tão boa música, deliciosa soul para cantarolar no duche, plena de boa disposição, ora simultaneamente antiquada e sofisticada, por um Lidell que quis agarrar o público pela anca e elevar a fasquia, logo a abrir, até níveis quase inalcançáveis pelos que se seguiram. Nomeadamente o jovem crooner Mayer Hawthorne (novo talento da Stones Throw de Madlib & companhia), que, sob as mesmas coordenadas soul, mas com muito maior encenação, não se deixou intimidar e avançou para uma sessão não menos interessante e dançável, chegando a convencer, talvez, alguns daqueles que haviam torcido o nariz perante o aclamado disco de estreia.

Entretanto já St. Vincent (Annie Clark) encantava o palco secundário, ao princípio da noite, conjugando toda uma delicadeza feminina com a rispidez da guitarra eléctrica, qual Polly Jean Harvey, só que muito mais imaginativa e não convencional. Silhueta frágil mas plena de força poética, por entre rock, jazz, electrónica, clássica, com alguns momentos de pura abstracção sonora que aguçaram a curiosidade para a rever noutras circunstâncias. Terá sido uma das melhores escolhas do cartaz e superou as actuações que se seguiram naquele palco, pela noite fora: The Temper Trap, Grizzly Bear e Beach House. Dos primeiros resultou um longo bocejo (ou pausa para jantar), enquanto os segundos foram celebrados pelos admiradores confessos mas dificilmente terão conquistado mais alguém, e não está em causa a qualidade da sua música, tão só a falta de génio, ou de algo que os distinga de mil e uma outras bandas que parecem tocar exactamente as mesmas músicas, com os mesmíssimos arranjos e acordes, não se percebendo muito bem a histeria gerada em torno do mediano “Veckatimest” (2009). Quanto aos terceiros, Victoria Legrand e Alex Scally, emergente dupla de Baltimore, traziam um disco mais fraquinho na bagagem, “Teen Dream” (2010), pelo que não conseguiram replicar a transcendência dos primeiros concertos que deram em Portugal, por mais que a menina sacudisse a cabeleira. Não foi a noite deles.

Pet Shop Boys © Joana Cardoso

Noutras paragens dançava-se ao som da pop dos australianos Cut Copy, qual pastilha elástica para mascar e deitar fora, num concerto bastante mexido que não defraudou ninguém que não esperasse mais do que aquilo, ou seja, uma enorme pista de dança num cenário rock festivaleiro com muito pó à mistura. Bem mais indigestos são os Keane, baladeiros RFM, de fugir a sete pés. E só depois o momento alto da primeira noite, na companhia dos decanos Pet Shop Boys, profissionalíssima máquina de espectáculos, com toda uma cenografia, toda uma noção de entretenimento, toda uma eficácia de fazer corar de vergonha os demais jovens turcos que os precederam. Não serão tão divertidos quanto os Devo e a música estará ao nível de uma sessão de karaoke num qualquer pub para a meia-idade, quase toda pré-gravada, à excepção da voz (irritante) do mestre de cerimónias Neil Tennant, mas ninguém os poderá acusar de pretensiosismo ou de incapacidade para montar um bom espectáculo, programado ao milímetro, qual software informático, a par de uma grande qualidade estética e imagética. Aliás, o gritante constraste com a pobreza visual do showcase da M_nus, que prosseguiria a ritmo infernal até às 4 da matina, na tenda de música electrónica, terá levado muito boa gente a seguir directamente para o martírio do campismo ou - os mais sortudos - a pegar no carro rumo a outras circunstâncias. O melhor do Hype@Meco, os concertos sob a resplandecente aurora veraneante, parece ter escapado à memória dos organizadores.

Empire of the Sun © Joana Cardoso


A revolução dos geek

Ao segundo dia, nada de relevante foi tocado ou musicado até que a noite se abateu sobre o recinto e, com ela, brilharam os londrinos Hot Chip, em versão mais acelerada e festivaleira (longe do intimismo e do detalhe de outras aparições, especificamente no Sónar de 2006, em Barcelona), cativando o público para dançar freneticamente, não só abordando o último álbum mas também dando uma perninha nos anteriores. Deixaram de ser um segredo bem guardado e isso causa urticária aos fãs mais primogénitos, mas é bom que se habituem, porque a partir daqui será sempre a subir - não necessariamente para melhor, até porque duvido que consigam replicar a perfeição de “Coming on Strong” (2005). Antes passou pelo palco um flop chamado Julian Casablancas que se já dava seca com The Strokes, então agora, a solo, chega a roçar o patético, não obstante o gáudio histérico das semi-adolescentes na primeira fila. Não menos desinteressantes revelar-se-iam Patrick Watson e Holly Miranda no palco secundário, por onde passou também uma simpática Rita Redshoes a puxar, sem grande sucesso, para o imaginário das Electrelane (falta ali qualquer coisa, um rasgo, um riff de guitarra, uma pianada atonal e descontrolada, enfim, é tudo demasiado soporífero).

Rita Redshoes © Joana Cardoso

Na mesma noite destaque ainda para Vampire Weekend, divertidos e bem dispostos mas pouco mais do que isso, na minha opinião. Demasiado certinhos, aprumados, incapazes de não vestir roupa de marca, passada a ferro, carecem talvez da acidez de uns Animal Collective enquanto se passeiam pelo campus universitário com uma malinha repleta de música africana (ver entrada na Encyclopaedia Britannica) que pilharam à distância, através de um rato de computador. Pior, limitam-se a copiar aquilo que Brian Eno e David Byrne andaram a fazer há cerca de 30 anos, só que mais plastificado. Mais tarde, a encerrar o palco principal, exercício de revivalismo com uns Leftfield que tentam desesperadamente reinventar-se, quais Massive Attack, misturando passado e presente, isto é, não podendo libertar-se do que foram mas ao mesmo tempo querendo ser outra coisa de modo a acompanhar as novas tendências. Confuso? Não mais do que o concerto em causa, deveras ziguezagueante. E seguiu tudo em romaria para o set de Ricardo Villalobos na tenda de música electrónica (com uma programação que deixou muito a desejar, exceptuando Villalobos e Laurent Garnier), que teria sido bem mais memorável se tivesse durado até ao nascer do dia e não abruptamente interrompido por volta das 4 da matina. Para além da limitação temporal, partilhou o espaço com Zip, nunca conseguindo alavancar a transcendência que lhe sentimos noutras epifanias.

Hot Chip © Joana Cardoso


A tempestade perfeita

E ao terceiro dia instalou-se o caos. Não vale a pena insistir no que já foi escrito, resta lamentar terem-se perdido os concertos de Sharon Jones & The Dap Kings (deve ter sido uma curtição!) e Wild Beasts (não parecem ser maus). Ainda ouvimos algumas músicas dos The National mas isso não chegou para compreender o porquê de tanta admiração por uma coisa tão banal e afectada. Quanto a Prince, valeu a pena, não obstante os longos intervalos entre os temas e o gosto duvidoso da aparição de Ana Moura com fado para guitarra eléctrica de Minneapolis (os portugueses adoram que lhes afaguem o ego patriota, sempre tão machucado), num duplo momento de facto irrepetível e com algum interesse mas, enfim, nada de extraordinário (os portugueses adoram ter acessos de mitologia sebastianista). Fez mexer a anca com uma toada mais funky, hit após hit, passando até pelo clássico “Le Freak” das Chic (com um vibrante dedilhar da linha de baixo à Nile Rodgers), mas também aborreceu com as baladas mais insípidas e prolongou “Purple Rain” até à exaustão (um quarto de hora!). É sem dúvida um pequeno grande músico e um excelente letrista e compositor, mesmo não tendo deslumbrado, até porque já se desencontra numa fase descendente da carreira. Mais, é uma enciclopédia viva da música negra norte-americana, cruzando estilos e linguagens numa só persona camaleónica que já foi símbolo andrógino e anti-nome e voltou a ser Prince. Respeito.
· 22 Jul 2010 · 13:03 ·
Gustavo Sampaio
gsampaio@hotmail.com
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