Aquaparque / Atlas Sound
Lux, Lisboa
04 Jun 2010
Um dia sem escola não representa para os putos de hoje o que representava para quem cresceu nos anos 80. Com o acesso a apenas dois canais de televisão e um ZX Spectrum em que metade dos jogos não entram, um filho de 1982 dá por si deitado num sofá com demasiado tempo para pensar e pouca paciência para as séries propostas no Agora Escolha. No fundo, quem nasceu nesses anos aprendeu a atrofiar muito mais cedo. Um puto aborrecido e sozinho numa longa tarde de 80 convivia aprofundadamente com a sua própria neura até conhecê-la bem. Agora a televisão e a internet disponibilizam um número infinito de dramas e os miúdos só têm mesmo de acampar colectivamente à porta de sentimentos famosos. Importa muito mais aquele caralho que não passa à fase seguinte do Ídolos do que aquilo que se passa em casa.

Aquaparque © Mauro Mota

É, por isso, extremamente reconfortante reparar em como as vozes atípicas de Pedro Magina e André Abel (que – surpresa! - canta nas novas) eliminam os Aquaparque logo numa primeira selecção feita por um júri que privilegia o formatado e o puramente estético. Os Aquaparque são maiores que a caixa e, enquanto dão a conhecer temas ainda por gravar num segundo álbum, necessitam apenas de alguns minutos para mostrar que jogam numa liga à parte da canção nacional. Liga à parte em termos de intensidade e coragem, sobretudo. Mas isso era dado adquirido desde que É Isso Aí apostou numa medida perfeita (dez canções) para reconsiderar a utilidade da língua portuguesa na sua própria forma de sentir “à desgarrada”.

Com a antena exclusivamente apontada ao próximo álbum, os Aquaparque, no Lux, soam frescos sem que isso indique ruptura, mas sim uma fartazana de novas dimensões para o duo. O avanço é tal que um gajo fica desnorteado. Vejamos então: duas incursões pelo boogie (Aquaboogie?); André Abel a cantar como um branco numa festa africana (estranha-se e depois entranha-se); um feeling Madtirso; expansão, estômago e apoteose; os mesmos loops fracturados com o dobro da intensidade. E tudo isto nasce do mesmo quarto escuro. O intervalo entre canções não existe sequer e, assim, a experiência é vivida quase como um soundsystem do joelho a raspar no tartan. Os Aquaparque fazem música olímpica própria de quem pôde pensar e sentir em dias sem escola.

Atlas Sound © Mauro Mota

Bradford Cox também deve ter vivido os seus, enquanto imaginava e gravava os discos das bandas favoritas mesmo antes de serem lançados. Não sei ao certo o que o rapaz Atlas Sound escutava nessa altura, mas a noite no Lux levanta fortes suspeitas de que a sua obsessão actual é mesmo Neil Young (o gigante que já terá inspirado três gerações e um número incontável de revivalismos). Na última vez que tocou no Lux, com os seus Deerhunter e os Haunted Graffiti de Ariel Pink, Brad já tinha colocado a nu esta sua perdição quando insistiu com os membros das bandas para que o acompanhassem numa versão de “Down By The River”, de Neil Young. Desta vez preferiu estar em palco com uma guitarra, uma harmónica junto aos lábios e um aparelho sofisticadíssimo para encadear loops e as diferentes camadas daquelas peregrinações shoegaze. Bradford Cox estava em casa e o público estava lá nas estrelas com ele. Algures entre Neil Young e o Ziggy Stardust.
· 05 Jun 2010 · 20:24 ·
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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