Mission of Burma / Shellac
Galeria Zé dos Bois, Lisboa
24 Mai 2010


Se a Carta de Smith servisse para medir o avanço do mais inconformado rock norte-americano entre 1980 e 2010, nomes como Mission of Burma e Big Black pertenciam certamente às primeiras linhas da esquerda do gráfico. O trânsito da herança demorou o seu tempo, mas hoje é impossível recuar até aos discos revelados ao mundo com o empurrão do grunge, e não reparar na marca deixada pelos Mission of Burma e Steve Albini (por via dos Big Black) na fantasia dos putos americanos, que descobriam os seus primeiros álbuns na década de 80 (que, afinal, não foi tão má como alguns pintam). Ao albergar uma double bill, que junta os Mission of Burma e os Shellac (a armada compacta que Albini conduz desde 92), a ZDB quase oferece dois contextos práticos para aquela que é a motivação principal de Michael Azerrad no indispensável livro Our Band Could Be Your Life: tentar explicar como o underground norte-americano de 80 proporcionou fundações essenciais ao que de mais explosivo e popular surgiu na superfície musical da primeira metade de 90.

Mission of Burma © Vera Marmelo

Assim sendo, e numa noite que resultou também como aula rock, os Mission of Burma funcionam muito como professores eternamente jovens. Reconhecido principalmente pela pujança do clássico Vs. (1981), e reunido, numa segunda vida, desde 2002, o trio de Boston preserva intacta a convicção original e logo aí dá baile ao quarteto conterrâneo, os Pixies (e o declarado frete que exibiram nas últimas digressões). Na ZDB, os Mission of Burma vencem aos poucos o público com a rédea concedida à electricidade e uma entrega característica da velha escola. Entrega essa que ganha fulgor emocional com uma rotatividade de vozes que desmente sucessivamente a liderança de cada um dos membros (ainda que a t-shirt de Nação Zumbi, utilizada pelo guitarrista Roger Miller, mereça a minha total consideração). Em conformidade com as passagens mais rasgadinhas, a temperatura sobe dentro do aquário e “This is not a photograph” eleva os primeiros punhos ao ar. Depois, “Einstein’s Day” coloca a nu o entendimento calejado de Roger Miller e Clint Conley, e tudo desagua numa “That’s when I reach for my revolver”, que ainda hoje soa contemporânea no seu chamamento “punk” de outras auroras.

Encontrar os Mission of Burma ao lado dos Shellac não é de estranhar, mas existe uma explicação evidente para isso: Bob Weston, baixista (e vocalista auxiliar) dos segundos, acumula também funções nos primeiros, com quem, de resto, já gravou e tocou ao vivo. Bob Weston é igualmente suspeito de produzir os loops que entravam e saíam na mistura dos Mission of Burma durante a primeira parte. Enquanto vértice dos Shellac, bicho resistente dentro do rock do pânico e mau feitio, Bob Weston é quase sempre incumbido de manter em marcha um ritmo monolítico que equivale à pegada do animal. Ao seu lado, Todd Trainer (um dos bateristas mais feios do mundo, como alguém dizia) dificulta as descrições de quem tente explicar o apuro na sua sincronização e o dano na sua batida, tanto mais quando Todd parece a antítese do baterista virtuoso. Dentro deste esquema, Steve Albini (infinitamente admirável pela mão que teve em In Utero, dos Nirvana, e Surfer Rosa, dos Pixies) é o destabilizador munido com uma guitarra (e um engenho anormal) e uma perspectiva ácida e mordaz (e os berros certos) para todo o tipo de assuntos.

Shellac © Vera Marmelo

E os Shellac são uma banda que descobre as execuções mais irrepreensíveis para os assuntos mais disfuncionais: contam histórias sobre o ócio (“House Full of Garbage”) com um esforço suplementar e aproveitam a ilusão de “Wingwalker” para concretizar o espanto no rosto dos presentes (numa inesquecível mistura de spoken-word com uma teatralidade que resulta, mesmo que tivesse tudo para falhar). O peso instalado na sala chega a ser tal, que se torna ainda mais necessário (e perceptível) o comic-relief nas (já habituais) sessões de pergunta-resposta conduzidas por Bob Weston. O próprio Steve Albini aproveitou uma dessas pausas para confessar que Lisboa (ou aquele quarteirão) lhe parece uma cidade bonita. O gesto comove depois de tantos anos a ouvir e a ler Steve Albini a dizer mal de tudo e de todos. A noite, mesmo assim, confirmou que um gajo assim pode dizer o que quiser, desde que os Shellac continuem a varrer como na ZDB.
· 26 Mai 2010 · 00:06 ·
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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