Vashti Bunyan / B Fachada
Lux, Lisboa
13 Mai 2010
Depois de sofrer alguns reveses, Vashti Bunyan ganhou uma imunidade ao tempo que se verifica naturalmente na música que fez e que ainda faz. Pois se os anos passaram ao lado das suas canções é por demais natural que estas também não verguem perante a tendência. No Lux, os dias foram, tal como era esperado, de diamante (same, but different) ao longo de uma cerimónia de perdição em que Vashti Bunyan surgiu acompanhada por dois músicos claramente dotados e sem qualquer necessidade de surpreender. De resto, os brilhantes espalhados pelo rosto de Vashti oferecem o álibi perfeito para nunca sabermos ao certo se chora ou não ao recuperar ali mesmo as emoções armazenadas num baú com a profundidade de 65 anos. Fica mal reparar quando uma senhora (e que senhora...) chora.

Vashti Bunyan © Cláudia Faro Santos

É verdade que estas canções revolvem um ideário que serve muitas vezes para vender leite e autêntico chocolate suíço (sem que isso seja enjoativo), mas não há também como ignorar a humanidade e a excelência melódica que Vashti garante a tópicos tão seus como de todos: as longas viagens pelo Reino Unido; o mesmo desgosto amoroso perspectivado por três temas diferentes; a reencarnação numa irrepreensível “Here Before”. As novidades chegaram também com “Across the water” (belíssimo embalo dedicado ao sono durante os tempos de indecisão) e “Here”. E tudo soa quase perfeito num contínuo de som puro.

Vashti Bunyan © Cláudia Faro Santos

A resistência decresce até zero e o público vai cedendo aos encantos e letargia oferecidos pela música que toca a partir da bolha. No centro do andar inferior do Lux encontra-se alguém que suspira profundamente com cada nova canção anunciada. Também ela sabe como variar aquele clássico de Burt Bacharach e transformá-lo em What the world needs now is Vashti, sweet Vashti - não só para aqueles que estiveram no Lux, mas para quem quiser, claro.

Antes da “boa moca” provocada pela senhora de Lookaftering, veio a intervenção com as canções de B Fachada, desta vez acompanhado por Martim, o contra-baixista que alguns conhecem do talk-show 5 para a Meia-noite e das altas horas de segunda-feira no Lux (segundo indicação do próprio Bernardo). O prato forte ainda foi o álbum homónimo, que rendeu momentos infalíveis como “Velha Europa”, “Estar à espera ou procurar” e “Kit de Prestidigitação” (sempre fresca e pronta a arrecadar risos).

O clímax coincide com a última canção “As memórias de Paco Forcado – volume 1” (corrijam-me se estiver errado), a novidade quase épica que parece ser uma sequela “à boca cheia” para a mais sorrateira “Lá na selva”. B Fachada volta a cantar sobre a Zé dos Bois, utiliza a corrosão para derrubar as fronteiras que dividem Lisboa e remata com o poderosíssimo bordão instantâneo: Eu vou ser o puto Abrantes / eu vou ser o Panda Bear / eu vou entrar onde quiser / eu vou entrar onde quiser (ou parecido). Um bravo troiano como B Fachada está sempre em casa no terreno que invade.
· 16 Mai 2010 · 15:30 ·
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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