Oneohtrix Point Never / Frango
Galeria Zé dos Bois, Lisboa
24 Abr 2010
Uma casa composta em noite de festejos revolucionários, jogo do Benfica e na semana de todos os concertos (Times New Viking, Sonic Youth, etc.) é sinal de que a música feita em sintetizadores que interessa, ocupa hoje um cantinho especial. Neste caso, mais do que merecido, tratando-se de dois dos projectos mais interessantes dos últimos anos nascidos em margens opostas do Atlântico. Não fosse esta música tão desapegada de coordenadas terrenas.

Quem tem vindo a acompanhar os últimos passos dos Frango, tem vindo a constatar que o duo está, mais do nunca, embrenhado em alucinações cósmicas de enorme apelo sensorial. Mesmo que atirando à sua imprevisibilidade premente, foi isso que se passou durante o primeiro terço do concerto, com os rendilhados de teclas a construírem uma caminha onde nunca se deitaram em repouso os solos de sintetizador convulsos de Rui Pedro Dâmaso. A toada fofinha deu então espaço a algum ruído (muito space rock), que parecia algo arredado das suas últimas explorações. Esse ruído viria a transmutar-se num ambiente desolador, projectando uma paisagem árida onde cornetas de brincar processadas se assemelhavam a war cries. Sem descurar o regresso ao conforto. Esse poder de conduzir com mão firme, por entre o tumulto. Os Frango são enormes, e já há muito que se sabe disso.

A estreia em Portugal do projecto solitário de Daniel Lopatin é um daqueles casos de “aqui e agora” que merece ser celebrado. Sem se desviar impetuosamente da matriz que se reconhece enquanto Oneohtrix Point Never, abriu espaço para novas explorações que irão fazer parte de trabalhos vindouros (por exemplo, Returnal pela Mego). O início ficou marcado por aquele som de sintetizador do Juno, tão característico de alguns dos melhores momentos da carreira do músico norte americano (na linha do início de Memory Vague), em partes iguais nostalgia e desconhecido. Beleza em suspensão que intercalava com alguns movimentos mais abstractos, onde os resquícios da IDM lutavam com micro-excertos de canções impossíveis de identificar. Nunca estas passagens resvalaram para a esterilidade que sabotou os “avanços” de algo como o glitch, com Daniel manipulando sons além do reconhecimento sem os esvaziar de todo o pretenso humanismo. O encadeamento foi perfeito, até chagar a um final lindíssimo, onde um loop que poderia ser de Imogen Heap simulou de forma sublime o efeito da memória e a catarse que dela advém. Ou Hypnagogic Pop, se preferirem. Em tudo aquilo que este (pernicioso?) termo pode ter de mais positivo.
· 04 Mai 2010 · 14:55 ·
Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com

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