Sonic Youth / Gala Drop
Coliseu dos Recreios, Lisboa
22 Abr 2010
Naquela que foi a sua sétima passagem por terras portuguesas, apenas os estreantes seriam tendencialmente surpreendidos por uma actuação do lendário quinteto nova-iorquino. Sabe-se de antemão que o grosso do alinhamento recai sobre o álbum mais recente e que os clássicos marcam presença no encore. É também reconhecido o profissionalismo de uma banda que já anda a remexer em tudo aquilo que interessa no rock há décadas. Tudo o resto são as vicissitudes normais de uma instituição que não tem que provar nada a ninguém. O concerto da passada sexta feira foi prova disso mesmo. Não houve revelações para ninguém, e as epifanias devem-se ter ficado por uma meia dúzia de putos que nunca tinham tido a oportunidade de os ver. A juventude é realmente, uma coisa muito bonita.

Apesar das ovações com que foram presenteados e para simplificar com rudeza, foi uma actuação algo aborrecida. Em grande parte, deveu-se ao facto de The Eternal ser um disco mediano. Com um alinhamento assente neste álbum, muito dificilmente se poderia exigir algo ao nível daquele concerto brilhante de 2003, com Murray Street na bagagem. Se o início com “No Way” e “Sacred Trickster” ainda garantiram algum entusiasmo, os restantes temas de Eternal foram desfilando sucessivamente de um modo quase inócuo (numa escala Sonic Youth, obviamente). A própria banda parecia estar algo cansada, apesar dos esforços em contrário de um sempre jovem Thurston Moore, que em “Anti-Orgasm” se passeou pelo palco e fora deste envolto em feedback. Um circo rock, que nem fica mal, e que deve ter feito as delícias da pequena franja de mosh-pit, quando este os “acariciou” com a sua guitarra e estes o acariciaram extasiados. A juventude, novamente.

De resto, e até ao primeiro encore, foi das canções de um presente meramente aprazível que o concerto tratou. Com excepções em “Stereo Sanctity” e “Schizofrenia”, interpretadas de um modo algo morno. O que se compreende. Todos aqueles que ainda recordam com paixão os concertos de teor mais experimental circa A Thousand Leaves (“Anagrama” na Aula Magna é de antologia) tiveram de se contentar com o final da já citada “Anti-Orgasm”. The Eternal não deu grande espaço para momentos mais expansivos.

Os dois encores terão sido os momentos a ficar mais presentes na retina dos presentes. Aquelas que são as “canções da nossa vida”. O primeiro ficou entregue a Daydream Nation por via dos petardos “The Sprawl” e “Cross the Breeze”. Saciou, sem deslumbrar. Já “Shadow of a Doubt” e “Death Valley 69” ficaram-se por semi-desilusões. A primeira, numa versão tocada sem qualquer fulgor, onde foram mais do que notórias as dificuldades vocais de Kim Gordon. A segunda numa versão estranha, com um ritmo de bateria 4/4 de estrada que não se coadunou com o teor opressivo que este abismo colossal pede.

Antes disso, os portugueses Gala Drop apresentaram a sua tropicalia-kraut para uma meia casa ainda muito inerte. Tendo apenas assistido às três últimas faixas, pareceu ter sido um concerto algo confuso a que o som da sala não ajudou (ocasionalmente soltava-se um ou outro grave alienígena). Aos dois novos temas apresentados falta aquela centelha que fez de Gala Drop um registo tão querido. O primeiro assente numa batida dançável que (por ora) nunca chega a algum lado e o segundo a enviesar por solos de guitarra que levam Mark Knopfler até África, mas que se detém numa jam algo inconsequente. Quando “Parson” instituía já algum fervor, deu-se um momento estranho, com as luzes a apagarem-se e o som da banda a ser cortado a meio da interpretação. A versão oficial é que se tratou de um problema com um alarme de incêndio que tinha disparado sem explicação.

No final da noite e sem acessos nostálgicos, alguns pareceram satisfeitos, outros apenas indiferentes mas bem dispostos. Certamente terão havido pessoas que adoraram. Uma família, que naquele espaço se tornou enorme. Não havia espaço para queixas. Simplesmente porque os Sonic Youth continuam a ser melhor banda do Mundo. Ponto.
· 26 Abr 2010 · 22:20 ·
Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com
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