Sensational / Spectre
Galeria Zé dos Bois, Lisboa
16 Abr 2010
Apesar da diversidade de fumos, que se foram acumulando pelo ar, o espaço aéreo da Zé dos Bois não impediu que cada um voasse como entendesse pela mão do illbient lá do Brooklyn. Por illbient entenda-se o hip-hop e o dub enclausurados no mesmo caixão coberto por uma espiritualidade de marca (Wordsound) e a essência da música étnica. Esta ciência, desenvolvida durante vários anos na sombra, é da responsabilidade de Spectre (o produtor) e Sensational (o MC) , agentes da melhor escola dope (pedrada) do hip-hop norte-americano, que esteve em Lisboa numa raríssima aparição de qualidade.

Sensational © Mauro Mota

A noite da ZDB começou por inalar o fumo que Spectre foi lançando para o ar com um segundo plano dominado por imagens de erupções vulcânicas (esse vilão maldito) e filmes obscuros sobre a vida na República das Bananas e o exorcismo do Saci-Pererê. Entre passagens por versões adulteradas de “Stone Free”, de Jimi Hendrix, e “Seven Nation Army, dos White Stripes (clássicos de hoje e sempre), Spectre revela também a sua faceta de empresário quando coincide a capa dos discos projectados na parede com uma voz de Darth Vader sempre pronta a anunciar que as novidades já estão à venda. O hip-hop marginal também tem de pagar a renda. Sente-se a certa altura que o raio de acção de Spectre podia depender um pouco menos do laptop (repleto de trabalho de casa), mas não nos podemos esquecer que o patrão da Wordsound é um produtor excepcional e não um DJ virtuoso.

Sensational © Mauro Mota

Ainda assim, o tempo avança, a moca do breu bate forte e a entrada de Sensational em palco tarda como a do trunfo secreto que Jesus mantém no banco até perto dos 75 minutos. Acaba por acontecer, não sem antes sermos convidados a assistir ao trailer do documentário biográfico centrado no próprio. Merecedor do estatuto de mano de outro planeta, atribuído recentemente pela Wire, Sensational tem um sentido rítmico e skills de sobra para nunca se perder na arena do beat. E cedo se percebe que o beat é a casa mental de Sensational durante as 48 horas dos seus dias.

Sensational © Mauro Mota

À velocidade da luz e sem vacilar, o dotado freestyler (criado em Nova Iorque) rima a extensa escola que tem até decidir fazer uma pausa para que alguma inspiração enrolada chegue das mãos do público. Estoira depois um ou outro banger, que num disco de Spectre é apenas instrumental, mas que na ZDB foi passadeira vermelha para que Sensational mostrasse porque é ainda hoje um MC que só visto.
· 18 Abr 2010 · 22:49 ·
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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