Lisa Cerbone - Festival Tímpano
Casa das Artes, Famalicão
25 Mai 2005

O vedetismo é um problema, sobretudo quando afecta assuntos que facilmente se podem identificar com devoção, respeito ou expectativas. Ao lado de Antony e os seus Johnsons, Mark Kozelek era provavelmente o maior trunfo do Festival Tímpano, mas à entrada da Casa das Artes de Famalicão um comunicado anunciava o cancelamento do concerto do mentor dos Red House Painters e dos Sun Kil Moon, provocado pelas suas constantes exigências. Depois das passagens por Portugal com os Red House Painters e até a solo, muitos esperavam o reencontro com a voz de discos como Songs For a Blue Guitar, Ocean Beach, Down Colorful Hill e Old Ramon, mas tal não aconteceu. Shame on you Mark Kozelek. Embora alguns tenham pedido a devolução do valor do bilhete (5 euros), foram, a ver pela assistência, mais aqueles que ficaram do que aqueles que desistiram da noite e de Lisa Cerbone.

© André Gomes

Depois de seis anos de hiato criativo, altura em que Lisa Cerbone se dedicou a formar uma família, Ordinary Days (Little Scrubby Music), o seu último disco, nasceu produzido por Mark Kozelek. Além de tomar conta da produção, o mentor dos Red House Painters tocou e cantou em Ordinary Days, um registo que contou também com a participação de Tim Mooney (American Music Club) na bateria e Geoff Stanfield (Black Lab) no baixo. A voz de Lisa Cerbone é muitas vezes comparada com as de Susanna Hoffs e Patti Griffin (e também com os mundos dos Innocence Mission ou dos Cocteau Twins) por ser doce, delicada e por piscar o olho ao etéreo. Lisa Cerbone acabou por pisar o palco com uma realidade diferente daquela que a esperava uns dias ou horas antes: era sobre ela agora que, na ausência de Mark Kozelek, recaíam todas as expectativas e esperanças de uma noite agradável. Passou de primeira parte de um espectáculo para o espectáculo em si e, analisadas bem as coisas, Lisa Cerbone pareceu ter acusado esse acréscimo de responsabilidade, especialmente quando revisitou temas antigos ou quando tentou dar a conhecer as novas canções do disco que se encontra a escrever, registo que conta com as palavras do poeta português Jorge Reis-Sá.

© André Gomes

De guitarra na mão, partiu para as canções acompanhadas pelas fotos de Nyree Watt, entretanto projectadas numa tela por detrás de si; fotos de paisagens de tons essencialmente azulados, gatos, caixas do correio, maçanetas de portas e de cenários de cumplicidade e intimidade semelhantes aos evocados pela música de Lisa Cerbone. As canções, essas, são reminiscentes da infância, escritas sobre os seus filhos (Lisa Cerbone é já mãe de duas crianças), inspiradas numa short-story de James Joyce (a hipergentil “Araby”) e até há espaço para uma canção sobre Elliott Smith escrita por Jorge Reis-Sá. Numa das várias vezes que fez uma pausa para afinar a sua guitarra, brincou com a situação contando que o seu marido lhe havia dito que ela nunca conseguiria tirar a tuning license. Ao apresentar uma das suas canções que surgem em filmes ou em séries de televisão, Lisa Cerbone até chegou a tocar (ou pelo menos a tentar) pandeireta com os pés. Adequado, tendo em conta que confessou que essa mesma canção surgia numa cena em que alguém levava um tiro. Num encore precedido de muitos aplausos, Lisa Cerbone apresentou “Mrs. Foster”, onde a certa altura se diz: “It's hard to see the road through all that rain / All that rain / Well, she was always nice to me / Brought me lemonade and costume jewelry / But they say she loved and lost too easily”. Para terminar, mais um tema que teve como pano de fundo final a primeira imagem que se viu em palco: a da capa do último disco de Lisa Cerbone, Ordinary Days, uma imagem de imensa calma e tranquilidade.

· 25 Mai 2005 · 08:00 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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