Sunn O))) / Eagle Twin
Lx Factory, Lisboa
02 Fev 2010
Lembram-se de uma frase promocional a um filme de terror que dizia “Before you die, you see...”? Então Googlem, e depois mudem para “Before you die, you see The O)))”! Durante pouco mais de hora e meia, uma Lx Factory com bastante público (aquele que escreve este texto nunca o adivinharia quando falava entusiasmado de Flight Of The Behemoth há uma série de anos) foi submetida a uma experiência física e sensorial que, arrisco dizer, só esta banda poderá repetir. As bandas únicas são assim.

Sunn O))) © Vera Marmelo

A julgar pelo número de pessoas presentes na sala quando Greg Anderson, Stephen O’Malley, Attila Csihar e Steve Moore vieram à boca de palco agradecer os muitos aplausos, não estaremos perante um fenómeno “Bora lá ver ao que isto soa”, que depois resulta em desgosto. Resultará em horror, sim, mas naquele sentido semelhante ao de vermos um grande filme do género, procedermos a uma total “suspension of disbelief”, e viajarmos com ele pelo seu universo. Tantas vezes vimos Anderson e O’Malley erguerem as guitarras perpendiculares ao chão como machados prestes a efectuar uma decapitação. E quando esta ocorre, normalmente jorram torrentes de sangue. O sangue dos SunnO))) é aquele som que parece nunca ter ponto de partida, apenas vibra, estremece, entranha-se no ar como um certo campo de energia formado por todas as coisas vivas. E inertes também.

Sunn O))) © Vera Marmelo

Não estamos, realce-se igualmente, a falar de um concerto em que é tudo “o que interessa é a música, meu”. Se os SunnO))) não jogam no campeonato de espalhafato cenográfico de uns Muse (e felizmente que no musical não jogam MESMO), a sua noção de espectáculo está bem viva, e importantíssima no sentido de dar ao público o menu completo. Durante vários minutos viu-se o palco enevoado e impenetrável. Quando O’Malley e Anderson surgiram, os seus capuzes e caras invisíveis ao longe faziam lembrar os Nazgul (prometo que chega de referências cinematográficas). Os seus movimentos arrastados são essenciais na coreografia da música. Csihar enverga fatos diferentes, emite sons ora vindos da sua linhagem black metal, ora repete mantras acompanhado de um silêncio quebrado suavemente por um trombone ou teclados. Mais à frente disparará lasers dos dedos e apontá-los-à à sua cara, fazendo-os reflectir numa enorme coroa que envergava. Ninguém se atreveu a bater palmas até que tudo acabasse. Apetece ficar atónito, hipnotizado pelo palco e pela música, a qual parece capaz de fazer o chão erguer-se e ser sugado pelos amplificadores. Isto não é drone, doom, metal, minimalismo, ou o que quiserem usar como rótulo. Isto é, simplesmente, uma invenção genial. Música que desafia, conquista e esmaga como é, e deve sempre ser, raro.

Na primeira parte, os Eagle Twin, um duo formado pelo guitarrista/vocalista Gentry Densley e pelo baterista Tyler Smith, ofereceu ao público que ainda se dispersava um concentrado de doom gutural, quais Om retirados do contexto místico e obrigados a comerem frango com molho barbecue com uns gajos de cabelo comprido e mal lavado, e camisas de flanela. Existe uma capacidade interessante de dramatizar o som, e causar boas náuseas. O som arrasta-se, rasteja, mas não perde a dinâmica. O que talvez tivesse ficado bem aos Eagle Twin seria um pouco mais de variação dentro do mesmo tema. E diga-se que, depois daquilo que se passou a seguir, poucas bandas teriam deixado grandes recordações na memória.
· 03 Fev 2010 · 09:56 ·
Nuno Proença
nunoproenca@gmail.com

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