Verão de São Martinho
Plano B, Porto
11 Nov 2009
Optando pelo conforto de uma contextualização histórica, as quatro actuações do passado dia 11 de Novembro no requintado espaço do Plano B são marca indelével de um contínuo onde música de teor mais experimental ou simplesmente estranho (acabe-se de vez com o sofrível termo vanguardista) se encaminha para formatos mais reconhecíveis. Ou pura e simplesmente canções. Hoje, essa estranheza parece ser dotada de uma pobreza de recursos, que partindo dessa volátil definição de folk a encarregam de a dotar de uma idiossincrasia, largas vezes, imune a apetrechos técnicos ou virtuosísticos. Um regresso ás origens da música enquanto expressão por uma via fragmentada. A sensibilidade etérea das canções das meninas/senhoras e o encantamento instrumental do senhor partilham afinidades, de forma distinta, como quem faz da música urgência. Como se os campos de algodão do Sul norte-americano pudessem perfeitamente viver nas ruas de Lisboa ou num loft de Portland.

Nunca tendo reconhecido em Inca Ore as tão referenciadas virtudes que vão aparecendo amiúde em solo americano, as expectativas em torno da sua actuação seriam à partida, reduzidas a essa mesma imagem. Dentro da tónica dominante na noite do menos é suficiente, Eva Saelens abriu a noite munida de um pequeno teclado (e respectivo processamento) e gravações prévias para construções rudes e esqueléticas deixarem a sua voz planar. Com um alinhamento assente no mais recente Silver Sea Surfer School, a música fantasmagórica de Inca Ore acaba por existir nessa fragilidade roufenha que se encontra nos blues primordiais. “Shine On” é uma cantilena resplandecente. Gospel subaquático sem paralelo na restante actuação. Sintomática do seu trabalho de estúdio, por se encontrar demasiado presa a um modus operandi hermético, onde nem sempre as ideias chegam para desenvolver as premissas da canção-fantasma. A lembrar, por vezes, o concerto-karaoke de US Girls na ZDB, numa versão bem mais envolvente, mas ainda assim com espaço para um final despropositado de piano em notas disconexas e voz contestatária. Mas longe do embaraço.

Deixando cair a aspereza que fez do concerto de Inca Ore algo bastante apreciável, Jesy Fortino tenta segurar a fragilidade em dissolução de Tiny Vipers numa guitarra acústica simplista e voz melosa com afectações pseudo-estranhas. Sem composições à altura para insuflar algum tipo de vitalidade em esquissos de canções. Soporífero pop de recorte folk a desaparecer da memória rapidamente. A ser cruel, uma Mafalda Veiga às voltas com o mundo onírico de Josephine Foster. Não deixa de existir em Tiny Vipers uma humildade palpável, e bem intencionada. Mas de que vale isso quando a música se revela tão inofensiva?

Enquanto o sector feminino caminha em direcção à canção, Norberto Lobo revela uma aparente direcção no sentido inverso. Não que as melodias resplandecentes do fingerpicking tenham dado origem à descontrução instintiva pós-Derek Bailey, mas comparativamente às músicas escorreitas de Mudar de Bina, Norberto Lobo explora hoje caminhos muito expansivos que na sua estreia. Não sendo à data conhecedor de Pata Lenta, foi com surpreendente fascínio que as novas composições do músico lisboeta escorreram da guitarra para o(s) campo(s) auditivo e visual. Escapando ao facilitismo melódico, Norberto Lobo experimenta com destreza os mais inusitados desvios a qualquer caminho confortável em direcção à casa de John Fahey. Escapando sempre entre os seus dedos uma nota mais esquiva que encadeava com uma nova estrutura. Se o savoir faire era há muito notório, as reacções a Mudar de Bina fundamentaram-se numa promessa. Agora sim, Norberto Lobo é enorme.

Consonância assombrosa entre a música e a postura de Grouper. De olhos no vazio e corpo dormente, Liz Harris parecia fitar os fantasmas que desde sempre a acompanham. When I was young I didn't have many friends. I spent a lot of time trying to talk to ghosts, doing ghostwriting, finding them in my dreams disse a própria numa entrevista recente. O magnetismo da imobilidade leva a acreditar. Foi esse mesmo lado mais difuso e etéreo que prevaleceu quando seria algo natural esperar pelas canções de corpo aberto de Dragging a Dead Deer Up a Hill. “Heavy Water” só mesmo aquela que reflectia a luz por entre o negrume do filme projectado em fundo. Num contínuo sonoro de cerca de 40 minutos, Liz Harris foi recorrendo ao calor roufenho das cassetes para deixar no ar os loops e gravações de campo que sustentaram as suas canções. De certo modo, foram quatro as apresentadas num fluxo drone em estado semi-consciente. Half-remembered songs assombradas por uma doçura levemente ruidosa. O corpo deu-lhes forma. A dado ponto pareceu ouvir-se o início de “You Never Came”. Tivesse acontecido e teria sido maravilhoso. Mas isto, numa nota pessoal, pois todos os presentes teriam certamente em Grouper algumas canções da sua vida. A realidade tratou de equilibrar as sensibilidades e o fascínio permanece.
· 25 Nov 2009 · 00:42 ·
Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com

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