Steve Reich & Bang On a Can
Centro Cultural de Belém, Lisboa
1 Nov 2009
Em 2007 os Bang On a Can interpretaram ao vivo a obra Ambient 1 - Music for Airports de Brian Eno na Casa da Música, numa performance que teve “momentos verdadeiramente sublimes”. Desta vez o ensemble nova-iorquino apresentou-se em Lisboa, com um programa de luxo e um convidado muito especial. Steve Reich, um dos mais importantes compositores do século XX, marcou presença no CCB para co-interpretar algumas das suas peças.

O programa abriu com Clapping Music, peça de 1972, uma das mais curtas e radicais do compositor americano. Dois intérpretes batem palmas conforme um padrão rítmico previamente definido e à medida que a peça avança um deles vai-se desfasando do ritmo inicial, até que no final os ritmos se voltam a encontrar (aviso: podem tentar isto em casa). Particularmente interessante, foi ver Reich no papel de intérprete, num rígido trabalho de impecável concentração rítmica.

A peça seguinte, New York Counterpoint, colocou em confronto o som de um clarinete pré-gravado com uma actuação “live” – no clarinete “vivo” estava Evan Zyporin, que trabalhou numa função de equilíbrio. A primeira metade do concerto fechou com Piano Phase / Video Phase (upgrade multimédia da original Piano Phase de 1967), peça baseada na mesma ideia de desfasamento rítmico (“phasing”) de Clapping, sendo desta vez o intérprete confrontado com o som de um piano previamente gravado. A componente vídeo funcionou como interessante acréscimo visual.

A segunda parte do programa arrancou com Music for Pieces of Wood, novamente com Reich em palco. Tal como em Clapping, cinco intérpretes produzem ritmos diferentes em simultâneo, num regresso à ideia de “phasing”. Seguiu-se Electric Counterpoint, peça composta para Pat Metheny, que a interpretou pela primeira vez (em entrevista publicada na revista Jazz.pt #12, Metheny contou que “foi uma honra incrível ter sido convidado para tocar a sua peça”). No palco do CCB a guitarra esteve nas mãos de Mark Stewart, que enfrentou os sons pré-gravados de outras guitarras – confirmando-se como uma das peças mais envolventes da noite.

Para o fim ficou Sextet , a composição mais ambiciosa e extensa do programa. Além de piano e sintetizador, esta peça utiliza diversos vibrafones e vários tipos de percussão. Ao contrário das anteriores, esta composição mostra Reich a investir numa maior amplitude cromática, numa diversidade de registos e em diferentes níveis de complexidade , afastando-se aqui um pouco da corrente minimalista da qual é um dos maiores porta-vozes. Foi o final de um espectáculo que mostrou ao público português algumas das obras mais emblemáticas de um dos maiores compositores da nossa época, um dos mais criativos exploradores da noção de ritmo. E que nos deu o prazer adicional de ver o próprio a interpretar as suas peças.
· 02 Nov 2009 · 14:01 ·
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

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