Magnolia Electric Co.
Bush Hall / Institute of Contemporary Arts, Londres
2/7 Set 2009
Todos os grandes autores têm palavras-chave às quais regressam sempre. Pontos de referência em torno dos quais a maior parte dos seus trabalhos gira e que, desaparecendo, retirariam todo o sentido às suas obras. Palavras discretas que, uma vez ouvidas, evocam recordações de outros momentos quando tinham feito a sua primeira (ou segunda, ou terceira) aparição.

Jason Molina tem, como todos os grandes, uma série dessas palavras. As estrelas são uma constante ao longo das suas letras (em particular a estrela do Norte), bem como os fantasmas. Os lobos também surgem regularmente, da mesma forma que um verbo: desvanecer. As canções de Molina, que ganham forma nas mãos da sua banda – Magnolia Electric Co. -, são mergulhos densos e por vezes negros na sua mente.

Antes de tocar “Hard to Love a Man”, no segundo de dois concertos que deram no espaço de uma semana em Londres, Molina disse que o título desta canção era basicamente a história da sua vida ('It was hard to love a man like you/Goodbye is just what you do/In a life built out of only goodbye/is there even room for you').

Os dois concertos tiveram alinhamentos semelhantes, ou não fosse isto a digressão de apresentação do mais recente álbum Josephine, mas foram significativamente diferentes. Tudo devido à disposição de Molina. Conhecido por ter um temperamento difícil, no primeiro dos espectáculos Molina mal dirigiu uma palavra ao público. Tocaram 17 canções, entre as quais um encore ('Lawyers, Guns and Money' de Warren Zevon), num ritmo quase Manu Chaoiano.

No segundo concerto tudo mudou. Molina aparentemente bem disposto desfazia-se em sorrisos para o público. Agradeceu no fim de cada canção (com um muito americano “Thank you kindly”) e falou, falou, falou. 15 músicas, sem encore, num passo que permitia saborear melhor aquilo que os Magnolia Electric Co. fazem. “Country jams”, nas palavras da banda de abertura The Bitter Tears, com algumas das melhores letras a virem dos EUA neste momento, ou desde 2000, quando na anterior encarnação, enquanto Songs: Ohia, lançaram The Lioness.

Na segunda noite, a quinta música trouxe algo de novo. Molina perguntou se o público queria algo que não estava em nenhuma gravação. O público respondeu que sim, assentindo. 'Não estou a perguntar', diz Molina. Algumas canções mais tarde, um elemento do público pedia pela segunda vez “Farewell Transmission”, canção de abertura do primeiro álbum dos Magnolia Electric Co.. “Eu sei que tu queres”, gritou o espectador. Molina é duro na resposta: “o autor aqui sou eu”.

Apesar desta ligeira hostilidade, Molina cedeu um pequeno “Farewell Transmission” no final do concerto, durante um medley em “John Henry split my Heart”, para grande satisfação do rapaz que a tinha pedido em primeiro lugar.

O céu está por toda a parte no simbolismo de Molina. O céu que cai, numa referência óbvia às estrelas, é permanente. 'Eu não preciso de um telescópio porque só olho para a lua', disse. Ainda assim, confessou tentar apanhar com as mãos as estrelas cadentes.

Molina estava bem disposto na segunda noite, mas até que ponto era uma boa disposição? “Querem ouvir outra música triste? Estou numa boa disposição para tristeza”. Não consigo pensar noutra banda que faça sentir tanto os Estados Unidos da América como os Magnolia Electric Co.. E nunca lá fui. “I stood on the 66 highway”, diz Molina. “I found myself standing on the mountain/Beneath my full moon heart”. Não me imagino noutro sítio que não um deserto norte-americano.

P.S. - Um post-scriptum para destacar a banda que acompanhou os Magnolia Electric Co. durante esta digressão: The Bitter Tears. Parte daquele novo country (ou talvez não tão novo) alternativo, que vive das letras cativantes, combinadas com música catchy, tendo como cereja no topo do bolo uma atitude em palco muito aberta perante o público, no sentido de ser um misto de cómico com íntimo. Não fosse a banda de Jason Molina muito boa mesmo e teria sido a segunda melhor coisa em palco.
· 09 Set 2009 · 11:01 ·
Tiago Dias
tdiasferreira@gmail.com

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