Seun Kuti & Egypt 80
Centro Cultural de Belém, Lisboa
29 Ago 2009
O festival CCB fora de si apontou para o palco principal da casa de cultura lisboeta o concerto de Seun Kuti mas o povo levou à letra o título do certame. Demorou algum tempo, mas aconteceu. Filho do génio Fela Kuti, Seun Kuti trouxe a Lisboa o legado do pai: o afro beat e a banda do pai, os Egypt 80, que é a também a sua banda desde os 8 anos. Seun Kuti está por isso perfeitamente à vontade para recriar o sonho de Fela Kuti, um sonho de liberdade para África e de uma música revolucionária, tanto politicamente como estilisticamente. Em palco estiveram nem mais nem menos do que 15 músicos, dividindo tarefas entre os saxofones, trompetes, percussão (muita e boa), guitarras, baixo, teclados e vozes.

A música é aquela que conhecemos, não há nada a enganar: cheia de funk e jazz, cheia de ritmo, hipnótica até aos dentes, maravilhosamente circular e celebratória. Não admira pois que, logo no inicio, alguns se tenham recusado a sentar nas cadeiras confortáveis do CCB, ficando nos corredores em alegres danças. O álbum é Many Things, foi editado em 2008 e foi a ele que Seun Kuti recorreu para dar um concerto fabuloso. Mas o disco é apenas pretexto: aqui tudo soa improvisado (excepto a estrutura superior) e fresco, talhado para o contacto mais do que directo com o público. Pode começar com um saxofone ou com a percussão, mas pouco depois, organicamente, o grupo une-se pelo som constrói-se um certo groove que é explorado nas suas múltiplas hipóteses.

As mensagens políticas, de luta pela África e contra a indiferença do mundo ocidental, vão-se seguindo – entre as canções ou fora delas. O espírito vai sendo criado e perto do final, acontece o inevitável: todos se levantam para, em comunhão, celebrar aquele momento através da dança. Nem Barack Obama, que é fã assumido da música da família Kuti (nascida e criada na Nigéria), teria resistido a fazer o mesmo. Não há como resistir ao contágio criado por aquelas explorações com mais de 10 minutos que caminham para uma espécie de confluência de sentidos e concentração de esforços. Não há mesmo como resistir.

Não valerá muito a pena discorrer sobre temas; apenas dizer que foi uma grande celebração do afro beat – não há muito a inventar para o estilo, não há grandes introduções a fazer. E dizer que Seun Kuti tem o afro beat no sangue na entrega de uma rendição fiel e legitima da música que o pai inventou e deu ao povo e à luta (por falar nisso, Jel, Neto na sua versão guerrilheira, foi um daqueles que se recusou a sentar desde o inicio). Uma coisa é certa. Não será fácil apagar a memória deste concerto das paredes e da história do CCB; Seun Kuti e os Egypt 80 deram um concerto imenso, numa celebração do afro beat e da própria vida.
· 03 Set 2009 · 21:11 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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