Supersonic
Custard Factory, Birmingham
24 Jul 2009
O cartaz prometia, no mínimo, uma combinação de bandas, grupos, artistas, actuações variadas, alternativas, diferentes. O tudo. Ao olhar para os nomes da programação dos três dias do festival Supersonic, que decorreu no passado fim-de-semana em Birmingham no Reino Unido, conseguia reconhecer um quarto deles, no máximo. Contudo, os que reconhecia eram mais do que meros nomes. Eram - são - monumentos sonoros. Começando e acabando nos japoneses Corrupted.

Depois, claro, a surpresa de última hora que foi anunciada poucas semanas antes do festival: Sunn 0))). Não era grande espanto, visto que Thorr's Hammer, uma outra banda deste duo dinâmico, já estava confirmada há muito. E um pequeno prazer íntimo deste vosso escriba também ia estar nesta cidade britânica de onde saiu em tempos um sábado preto (tirada de muito má qualidade): The Accüsed.

Birmingham é uma cidade onde o industrial reinou e as marcas disso continuam bem presentes. Porém, o que mais me marcou nos três dias que passei por lá foi o vazio. O abandono de partes da cidade que em tempos acolheram fábricas e o vazio das ruas. Excepto no centro. O centro é o sonho molhado de qualquer fã do mercado livre. O eixo principal é composto por centros comerciais. Muitos ou um só, não cheguei a perceber. E múltiplas ruas de comércio, com as marcas do costume num frenesim descontrolado de compras compras compras. A dez minutos desta área encontrava-se a Custard Factory, um hub artístico da cidade que recebeu o Supersonic.


Nem sei bem por onde começar ou onde acabar. Não tenho fio condutor, mas este festival não precisa de um. Os pontos altos são fáceis de encontrar. Naturalmente ser-me-ia impossível ver tudo, por isso fica aqui o aviso: estas foram as minhas escolhas de dentro do cartaz (já agora, outro aviso: as citações são de cabeça). A noite de sábado foi, de longe, a mais interessante. Domingo prometeu, mas desfalcou. Sexta foi só um aquecimento.

Correm rumores que dizem duas coisas improváveis, mas possíveis: o concerto de Sunn 0))) atingiu 131 decibéis e foi audível a mais de oito quilómetros de distância. É capaz. Depois de ter visto o mesmo tipo de performance em Londres em Fevereiro, esta desapontou por motivos de espaço. Não funciona tão bem em sala aberta, o que seria de esperar. Seguiu-se Venetian Snares, onde presenciei pela primeira vez mosh electrónico. Numa prova de como o pessoal da electrónica não sabe "moshar" como os punks, o vosso correspondente acabou o concerto a ser esmurrado. Deixemos sexta-feira e concentremo-nos no que mais importa.

Sábado era o dia grande e não havia dúvidas disso. A partir das sete da tarde todos os concertos eram imperdíveis no palco principal. Antes disso ainda houve tempo para um destaque de notar chamado Rose Kemp. Yo no creo en brujas, pelo que las hay, las hay. Foi o que se viu no palco. Sozinha com a sua guitarra, lançando pedaços sonoros de negro quase palpável, a voz tenebrosa a acompanhar. 24 anos. 24 anos inacreditáveis.

Durante todo o dia acompanhei o palco principal, o que me fez perder duas coisas das quais possivelmente me arrependo: Skullflower e Zu. Os primeiros troquei-os por Iron Lung, power violence com supostas influências de Swans (dizia o livro do festival, uma mentira total). Já agora, será power violence o melhor nome de sempre para um género? Antes de Iron Lung houve ainda Master Musicians of Bukkake, uma super-banda de drone algo indescritível, como muita coisa neste festival. Talvez não indescritível, mas certamente inclassificável. Com Brad Mowen (Burning Witch, The Accüsed) na voz, apareceram em palco vestidos como apicultores (?), excepto Mowen, que envergava o que parecia uma rede de pesca impenetrável. Excelente concerto, psicadélico sem ser agitado. E "Bukkake Sunrise" é um nome de canção genial.

Master Musicians of Bukkake © Tiago Dias

Iron Lung são um duo norte-americano. Guitarrista e baterista/vocalista/comediante que praticam um power violence decente sem ser original ou ao nível de outras bandas do género. Valeu pela presença em palco do baterista Jensen Ward que alternava música com o que foi, basicamente, comédia: "não somos como outras bandas que chegam ao palco e vos dizem mentiras 'vocês são os melhores', 'vocês são lindos', 'vocês perderam tanto peso desde a última vez que vos vimos. Oito mil quilos colectivamente". Não me arrependi de não ter visto Skullflower.

The Accüsed © Tiago Dias

A sequência que se seguiu foi The Accüsed, Thorr's Hammer, Corrupted e Monotonix. Accüsed pecaram por não terem tocado mais canções do passado. Com uma nova formação será de esperar (só o guitarrista resta do grupo original), mas alguma desilusão foi sentida, com elementos do público a gritarem não muito subtilmente "toquem músicas antigas!". Ainda assim, houve "Halo of Flies" e uma cover de UK Subs. Esperava-se muito mais. Nos bastidores, a espreitar por entre as cortinas estava Greg Anderson, que subia ao palco a seguir. Sorriso permanente nos lábios, cantarolou algumas letras. Foi bom saber que pelo menos um membro de Sunn 0))) é fã de uma banda como Accüsed.

Monotonix © Tiago Dias

Thorr's Hammer são um nome significativo dentro do doom metal, mas que nunca me tinha dado ao trabalho de ouvir. Runhild Gammelsæter é uma vocalista fabulosa, alternava entre a voz limpa, suave e sussurrante e os graves profundos que normalmente se esperam de um homem. Mostrava um sorriso muito humilde entre as canções sempre que ouvia o público aplaudir. Anderson, em forma de piada, nos intervalos das canções gritava "Bolt Thrower", por vezes antecedido de "fucking".

Corrupted foram o ponto alto dos três dias. Primeiro concerto de sempre no Reino Unido, esta lendária banda japonesa não desapontou. Vocalista vestido de negro, fato e gravata, com chapéu a acompanhar, não falhou nos guturais que caracterizam a voz da banda. Pode parecer estranho, mas Corrupted foi lindo. No sentido de ter sido belo. Em álbum também o são, ao vivo não foi diferente.

Corrupted © Tiago Dias

E Monotonix. Banda israelita de rock mais ou menos convencional, prima por concertos tudo menos ortodoxos. Tocaram ao nível do público, fizeram crowd-surfing, mostraram o rabo, tocaram bateria em pleno ar, foi o caos desenfreado que se esperava. Excelente banda em concerto, tocam bom rock'n'roll, sem que seja nada de muito original ou especial.

Monotonix © Tiago Dias

Domingo foi um dia de relaxamento, sentiam-se os níveis de energia a cair. Isso não impediu os zZz de dar um excelente concerto, num misto de Doors com Joy Division com coisas dançáveis mais recentes. Depois de uns Esoteric insuportáveis (imagino que tenham sido parte do cartaz porque são a banda da Jarboe), veio Khyam Allami e o seu alaúde. O músico sírio confessou sentir-se um pouco fora de sítio "sem sete amplificadores por trás e um manto". Apesar de ter tocado "Black Sabbath", valeu pelas escolhas clássicas e contemporâneas do Médio Oriente que deu a conhecer a um público bastante entusiasmado com o que estava a ver. Jarboe foi inenarrável. 65Daysofstatic idem, num pós-rock tocado por quatro rapazes que podiam ser uma banda de emo. The Memory Band foi gira, uma hora bem passada completamente composta por canções da banda sonora do filme "The Wicker Man".

Não conhecia Head of David, mas valeram a pena. A organização do Supersonic convenceu-os a reagruparem-se para um concerto e o balanço foi bastante positivo. Já não se faz industrial assim, agora que o Michael Gira se tornou manso. A noite acabou com Goblin, que abandonei ao fim de quatro canções (boas, diga-se, mas já não estava com cabeça). All in all, um grande festival. Longo, intenso, mas fabuloso. A convergência de tantos géneros musicais diferentes assegurava qualquer visitante que iria certamente encontrar algo para si. E custou 70 libras.
· 30 Jul 2009 · 13:46 ·
Tiago Dias
tdiasferreira@gmail.com
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