Cocorosie
Centro Cultural Vila Flor, Guimarães
20 Jun 2009
Na bilheteira do CCVF estava tudo dito num papel branco: “Lotação Esgotada”. As Cocorosie não são mais um fenómeno de poucos em Portugal. Os 800 lugares do Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor foram poucos para receber a dupla exuberante – como lhe chamam – formada pelas manas Sierra-Rose e Bianca-Leilani Cassady, senhoras de um apreciável disco de estreia e de mais um par de discos alguns furos abaixo de La maison de mon rêve (2004). A questão era então saber até que ponto conseguiriam as Cocorosie construir um concerto capaz de gerir um bom disco de estreia e dois registos menos bons, equilibrando as coisas para bem de todos.

Sierra e Bianca Cassady não vieram sozinhas. Com elas vieram também um pianista/teclista e um percussionista, substituindo assim o beat-boxer que acompanhou as Cocorosie durante bastante tempo. Os resultados não são os melhores. Grande parte da inocência e do intimismo das canções perderam-se e mesmo quando não foi o caso as escolhas de ambos deixaram muitas vezes a desejar. No que ao piano – de cauda, tocado decentemente – diz respeito, com ele algumas canções ganharam por vezes uma complexidade inesperada; noutras vezes quis-se enfiar outros mundos – jazz, por exemplo – num território não propriamente preparado para o receber. A percussão, repetitiva e monótona, tornou iguais canções que não o eram na sua génese. Deu a canções recatadas uma aura quase RnB de difícil degustação.

As canções resgatadas a La maison de mon rêve, mesmo assim, deixaram alguma magia no ar, instalaram no Grande Auditório do Centro Cultural de Vila Flor ambiências de inocência e puerilidade. “Beautiful Boyz”, mesmo sem o Antony da versão original, provou que há alguma vida para além de do disco de estreia. A tropical e expansiva “Japan”, celebrada por todos em pé e em êxtase (a convite das próprias Cocorosie), provou o mesmo e instalou na sala um clima intenso de festa e exuberância. O público, do inicio ao fim, não se coibiu de mostrar entusiasmo a todo e qualquer momento (muitas vezes para além do limite da paciência), batendo palmas a cada som e a cada manifestação vinda do palco. Há que reconhecê-lo: há muita energia vinda do palco que é absorvida pela plateia. Mas não tanta e tão boa.

Infelizmente, a maior parte das canções de Noah's Ark e The Adventures of Ghosthorse, menores na sua génese em relação ao disco de estreia, não conseguem ao vivo o upgrade que claramente necessitavam. Assim, e para mal dos pecados de quem viu em La maison de mon rêve um documento interessante e até refrescante, as Cocorosie são hoje em dia um retrato algo pálido do que eram nos primeiros anos. Foi pouco mais de “engraçado” encontrá-las em Guimarães; da mesma forma como é encontrar uma ex-namorada que já não se via há alguns anos e com quem se teve um final de relação minimamente amigável.
· 22 Jun 2009 · 14:36 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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