Primavera Sound
Parc del Forum, Barcelona
30 Mai 2009
Quando chegou ao seu último dia, o festival Primavera Sound, um dos melhores festivais do mundo, já levava muitas horas de – previsivelmente – boa música, tal é a qualidade dos seus cartazes ano após ano. Um palco ATP, um palco Pitchforkmedia e até um palco Myspace quase garantiam logo à partida um grande interesse para um festival à beira-mar plantado e a fazer justiça ao seu nome. O sol era muito e o som foi-se instalando de palco em palco a meio da tarde. Maika Makovski, a viver entre Barcelona e Nova Iorque, rasgou o sol intenso com um rock de trajes folk nem sempre interessante apesar da sua voz segura e de uma banda consistente. Apesar de alguma garra, foi sempre bastante inofensivo. Mas logo ali ao lado, num outro palco, Ariel Pink’s Haunted Graffiti preparava-se para aproveitar-se da música pop como gente grande e a escolha era por isso muito fácil.

Acompanhado por uma banda mais competente que noutros tempos (embora isso não seja sempre bom sinal), Ariel Pink, numa espécie de vestido de senhora em tons azuis, construiu e destruiu canções ao sabor da pop, foi resgatar músicas a outras décadas. No meio de tanta confusão e caos há uma enorme beleza; que se esconde, que se insinua no meio do psicadelismo e de ruídos vários. Há uma pop perfeitíssima que se esconde por entre a estética lo fi e a forma pouco ortodoxa como a banda de Ariel Pink entrega as canções. Não se conhece hoje em dia pop tão formosa vestida por feições tão rudes e é aí que este norte-americano camaleónico mostra o seu génio. É certo que The Doldrums é o seu lançamento dourada e que até hoje nenhum outro o igualou mas isso é apenas porque esse disco é uma pequena pérola da pop das últimas duas décadas. Ao vivo, ali ao sol e ao ar livre, a música de Aril Pink respirou mais do que nunca e encontrou espaços que julgava não existir. Ariel Pink, que se auto intitulou de diva pelo elevado número de pedidos aos técnicos e outras peripécias, andou a espalhar magia em modo Best Of – foi excelente o alinhamento - mas teve o seu momento alto – como poderia deixar de ser – com “Kate I Wait”, pérola pop eterna, desvario melódico que deixa marcas na pele a cada segundo; é uma canção intemporal, imortal e prova mais evidente da capacidade de Ariel Pink na escrita de canções. Foi o momento alto de um excelente concerto que terá deixado muitos à beira de um ataque de nervos e tantos outros com os sonhos em estado hiperactivo.

Da passagem pelo palco Pitchfork deu para escutar alguns sons da melancolia latente dos Shearwater, parentes dos Okkervil River, que deixaram meio mundo rendido. Estava em questão o mais recente Rook e a sua respectiva defesa em palco e do que deu para ouvir o teste foi passado com distinção. No palco principal, Estrella Damm, os Jayhawks apresentaram sem muito brilho o seu country rock e por aí terão ficado até ao fim. Não muito distante dali, os Plants & Animals, trio canadiano, preparava-se para surpreender muitas pessoas com um indie rock que explode a qualquer momento, que tem a sua dose de urgência e que confere muita confiança na força das guitarras. O trabalho como trio é exímio; são aproveitadas todas as sinergias possíveis entre uma bateria, um baixo e uma guitarra (para além da voz). Não é muito fácil pensar em referências óbvias e isso é um claro ponto a favor. O concerto passou com a velocidade dos bons concertos e deixou perceber que estes Plants & Animals têm bastante para dar se continuarem a explorar estes e outros territórios.

Pouco depois das 8 da noite espanholas, não havia que enganar. Neil Young preparava-se para espalhar magia no palco principal do Primavera Sound. A média de idades era mais alta que nunca, é certo. Mas em palco, a idade nunca foi condição nem premissa. Neil Young tinha uma longa discografia a defender ali – e a longevidade – e saiu-se da melhor forma. Não será disparate nenhum dizer que ninguém no Primavera Sound todo terá pegado numa guitarra com tamanha legitimidade e determinação. A electricidade nas mãos de Neil Young é prodigiosa; e aqueles solos em raiva e do coração deixam marcas em qualquer um que lá não esteja a cortar na casaca. O alinhamento nem deixou de fora muitas canções essenciais, nem seguiu um rumo puramente de Greatest Hits. Foi equilibradíssimo até na relação rock/calmaria. Foi buscar tempo e inspiração a muitos e distintos discos. Foi a Ragged Glory buscar “Mansion on the Hill”, foi a Harvest resgatar a maravilhosa “Heart of Gold” e a Rust Never Sleeps regatear “Hey Hey, My My” (furiosíssima no seu inicio) com o maior dos sucessos. Quando nesta última Neil Young canta “Hey hey, my my / Rock and roll can never die” só nos resta acreditar nele e nos olhos que vêm um excelente concerto provar que Neil Young é tão necessário hoje como o era há 30 anos atrás.

Há obviamente excessos como um órgão de tubos para uma única canção e um cachecol maroto do Barcelona já no final mas a um senhor que lançou discos como Harvest, On the Beach, Tonight’s the Night, Harvest Moon ou Sleeps with Angels (provavelmente um dos discos mais injustamente esquecidos do canadiano) tudo se pode ou deve desculpar. Neil Young foi imenso. Com a ajuda do banjo em “Old Man”, com o amparo das estrelas em “Unknown Legend” (a levantar poeira, estupidamente bela) e com a sabedoria que só o tempo traz a quem passou a vida a escrever canções maiores que a vida. E é por estas e por outras que vale a pena viver para assistir a um concerto de Neil Young.

Seguiam-se os Sonic Youth no mesmo palco principal, e neles caíam muitas expectativas. O novo disco, The Eternal, já está aí e os Sonic Youth ao vivo são o motor quente que se conhece. Mas, por algum motivo, a máquina Sonic Youth nunca chegou a aquecer o suficiente. Foi um concerto que envergonharia a grande parte das bandas rock da actualidade, entenda-se. Mas ficou aquém daquilo que Thurston Moore e companhia podem e sabem fazer. Parte da insuficiência dos Sonic Youth residiu numa grande concentração de esforços e energias no último registo e na ausência de algumas canções fundamentais para absorver o poderio que se conhece. A juntar a isso, a motivação da banda não parecia ser das maiores e o concerto foi de reduzida duração – passado pouco mais de 60 minutos do inicio das comemorações os Sonic Youth já estavam a sair para encore.

O novo disco parece ser interessante (por exemplo com “Anti-Orgasm” ou “What We Know”) mas ao vivo não deu para tirar todas as dúvidas. Mas depois houve “Tom Violence” (fabulosas guitarras), “Bull In The Heather” (raiva que não se quer conter) e “Hey Joni” e o gosto só poderia ser bom. Não foi um grande concerto – tendo em conta aquilo que conhecemos dos Sonic Youth e os discos que temos por casa ou até outros concertos de outros dias – mas continua a deixar os Sonic Youth confortavelmente no pódio das melhores bandas rock da actualidades – e das últimas duas décadas. Isso ninguém lhes tira.
· 09 Jun 2009 · 01:17 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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