Out.Fest 09
Barreiro
22-23 Mai 2009
Black Joker

Com Tomutonttu retido em Barcelona (malas roubadas, ao que parece), a noite de sábado abriu com Black Joker, o projecto de Spencer Clark, uma das metades dos californianos Skaters. Tudo muito simplista, com percussão, guitarra e vocalizações minúsculas e pontuais – as teclas a ganhar relevo depois dos primeiros minutos. Foi um warm-up como deve ser um warm-up: seco, curto e muito directo. Foram 20 minutos em que Clark fez o que lhe competia na sala de cima, desceu as escadas e andou o resto da noite a passear-se no recinto, com o seu pronunciado bigode e chinelos de veraneante. Como dois amigos chegaram a comentar, uma das coisas boas deste tipo de eventos é a liberdade de se ir a um concerto e falhar o início ou o final do outro. HG

Black Joker © Vera Marmelo


Loosers

Começa a ser redundante frisar a capacidade dos Loosers na renovação de pele efectuada com cada novo concerto e disco. Sem deixar de anunciar o mesmo trio, dinamizado por um entrosamento verdadeiramente impressionante, o nome dos Loosers representa incógnita até à última instância. Faz isso com que cada concerto dos Loosers tenha um pouco de revolução interna exposta em tempo-real. A partir daí, é oportuno o véu de fumo artificial que cobre os Loosers quando enveredam por uma jornada de desbunda rock (com duas guitarras) pontuada por desvios até paragens mais rituais (sem esticar muito a corda). E a verdade é que são incessantes neste nomadismo que lhes garante uma reputação que já ultrapassa fronteiras. À priori, era pouco provável que tentassem uma espécie de tema para perseguição em filme exploitation, com Tiago Miranda a rasgar pano no pedal wah wah, mas até isso aconteceu no Barreiro.

Loosers © Vera Marmelo


Ducktails

Matthew Mondaline utiliza o pretexto Ducktails para submeter a canção a uma espécie de fotossíntese imprevisível. A canção absorve pop aromática da Califórnia e um exotismo sem fronteiras e depois faz por esquecê-las. No piso superior d’ “Os Franceses”, Matthew Mondaline tenta a levitação de digressões amnésicas obtidas com samplers e uma guitarra “Robin Guthrie” com tónica na franqueza infantil. A sessão de ilusionismo termina com uma canção sobre reflexos, que passa a ser especialmente bonita num salão preenchido por espelhos (próprios da prática de ballet).

Ducktails © Vera Marmelo


Whitehouse

Não teria sido má ideia telefonar aos familiares mais queridos antes de encarar os Whitehouse. No que respeita à transgressão dos limites do ruído, o demoníaco William Bennet é senhor que caga e não bufa. Coincidentemente, o massacre levado a cabo no Barreiro elimina grande parte dos rivais no campeonato da hostilidade sonora (a entidade Borbetomagus consegue, mesmo assim, ser mais dura). Em palco, os Whitehouse são tão doentios como em disco. O tempo ocupado não andou muito distante do que conhecemos de Bird Seed: diante de um laptop e ao lado de uma jovem assanhada, William Bennett coloca à prova alicerces e tímpanos com a mais promíscua e absurda exploração do ruído feito fora do Japão. Como em Bird Seed, Bennett vocifera umas palavras autoritárias e dá-se também a algum histerismo. Impõe respeito. Depois de ter recebido os Diabos do Ritmo em 1943 (conforme consta numa placa comemorativa afixada), a colectividade “Os Franceses” recebeu os diabos da power electronics. Os que resistiram ao abuso da recta final, tiveram direito a um dos pontos altos do festival: depois de muita traquinice na manipulação de um theremin diginal, a metade feminina dos Whitehouse despiu o curto vestido e exibiu, durante escassos minutos, um rabo de impressionante qualidade (o porte era de Dita Von Teese, acreditem). Vivêssemos nos anos 80 e o mais provável era que a coisa não ficasse por ali. Também ela é experimental.

Whitehouse © Vera Marmelo


Spectrum

Sorrateiramente, Pete Kember pode bem ter sido o verdadeiro herói do Out.Fest (além dos organizadores). Desenganem-se, portanto, todos aqueles que acreditavam que o estatuto acumulado nos Spacemen 3 (históricos do rock psicadélico) diminuiria a entrega de Pete Kember (tcp Sonic Boom), na noite em que estreou por cá o quarteto que lidera há algum tempo. Quarteto esse que, a partir de certa altura, foi obrigado a medir forças com o tecno-xunga que partia da discoteca DNA, colada aos “Franceses”. Enquanto energia que torna inseparáveis a guitarra e o corpo de Pete Kember, a electricidade é, de igual modo, um contágio descontrolado num palco também ocupado por baterista, baixista e um segundo guitarrista. Todos merecedores dessa posição. A restante argumentação ficou a cargo dos clássicos “Set Me Free” (à velocidade do som) e “How You Satisfy Me” (à velocidade da luz). Os Spectrum foram mais galácticos que o Real Madrid.

Spectrum © Vera Marmelo
· 27 Mai 2009 · 00:45 ·
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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