Aaron Dilloway / Nate Young
Fac. de Belas Artes, Lisboa
04 Abr 2009
Sob o “olhar” atento de um esqueleto mutilado no palco, o confortável auditório da Faculdade de Belas Artes de Lisboa, poderia parecer um cenário algo inusitado para o horror lo-fi que caracteriza a sujidade dos Wolf Eyes. Não se tratando de um concerto da banda de Detroit per se, ainda assim, ambos os protagonistas da noite partilham afinidades com a estética slasher da reconhecida banda-mãe (ex-banda no caso de Dilloway) pouco coadjuvante com um espaço tão aconchegante. Não o chegou a ser, não só pela qualidade intrínseca às actuações, como por uma qualidade de som irrepreensível, que elevou a noite do passado dia quatro à condição de memorável.

Armados de gravadores e demasiada parafernália electrónica pouco identificável, ambas as prestações a solo se recolheram aos momentos mais tensos (e interessantes) do noise americano, em abordagens distintas sobre o mesmo efeito catárquico que a experiência do medo pode ser. A envolvência do terror sobre os desígnios do drone. Partindo de uma atmosfera volátil construída em torno de um drone grave, Nate Young foi entrecortando a hipnose com pequenas erupções através de um microfone de contacto ao encontro de um prato de bateria e da própria mesa onde operava, construindo uma paisagem desoladora enquanto recitava “The Bottomless Pit” com afectação slacker. Nunca cedendo a um crescendo óbvio ou ao ruído abrasivo, deixou-se planar nessa mesma tensão latente até ao final de uma prestação demasiado curta (cerca de 20 minutos) para que a imersão fosse total.

Assumindo uma posição claramente mais abstracta, Aaron Dilloway (e depois de alguns problemas técnicos prontamente resolvidos) invocou às suas gravações de campo reminiscências da banda sonora de Texas Chainsaw Massacre (algo palpável na sua obra a solo) para ir adensando a atmosfera com recurso a loops cada vez mais proeminentes até uma avassaladora explosão final de feedback, com Dilloway de microfone na boca a soltar espasmos na sua cadeira para um abrupto final, que o silêncio seguinte só veio amplificar. Terá sido, certamente uma das melhores golfadas de ruído enquanto libertação que alguma vez assombrou a capital.

Quando se esperava o encerrar das "festividades", e ainda recuperar da torrente anterior, deu-se o encontro entre os dois protagonistas (o que não acontecia desde a saída de Dilloway dos Wolf Eyes), numa colaboração (ainda assim, algo curta) que embora não atingindo o poder assombroso do concerto precedente, foi peremptória na demonstração das qualidades dos dois intervenientes de forma mais do que digna. Com recurso ao serpentear de loops, foram tecendo uma tapeçaria negra em constante desenvolvimento para tensão latente, deixando espaço para as vocalizações processadas de Young. Nunca resvalando para momentos mais ruidosos, habitou o seu espaço para hipnose colectiva. Belíssima aproximação ao formato dos Wolf Eyes nos seus momentos mais estáticos até se diluir subtilmente. Com a benção do esqueleto.
· 08 Abr 2009 · 09:11 ·
Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com

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