Matt Elliott
O Meu Mercedes é maior que o teu, Porto
12 Mar 2009
A noite é escura e a desertificação da Ribeira, no Porto, quase que ilumina o caminho em direcção ao cantinho em forma de gruta que dá pelo nome – encurtado – de O Meu Mercedes. Afinal de contas é lá que Matt Elliott se prepara para dar a todos os presentes mais uma razão para se avistar o mundo com olhos pessimistas. Não que ele tente demasiado, mas não tem mesmo alternativas. Está-lhe no sangue. E o actual estado das coisas dá-lhe ainda mais razão. Ele é o senhor Third Eye Foundation mas com quatro discos assinados em nome próprio é um criador autónomo, auto-suficiente, aplicado. São três registos de uma profunda escuridão, telas realistas que não se coíbem de retratar o mundo com ele o é muitas vezes: feio, triste, trágico.

Matt Elliott © Leonel Sousa

Quando pega numa guitarra a viagem começa. E aí Matt Elliott já agarrou todos aqueles que se deixam seguir pela imaginação que reverte em pequenas aldeias à beira-mar, de mulheres que choram os homens perdidos no oceano, de marinheiros que já não o são, de canções embriagadas, de e para bêbedos. Não é só por ele ter escrito canções sobre o mar e as suas tragédias, mas também porque a sua música tem uma qualidade marítima. De dar e receber, de ir e voltar, de qualidade fatalista. O último Howling Songs aparece em cena várias vezes e sempre de forma hábil – mas pouco ou nada interessa revelar nomes ou títulos. Duas guitarras em palco – uma acústica, outra eléctrica – servidas por pedais de efeitos e jogos de loops que não acabam (felizmente). E camadas que se sobrepõem e adensam o mistério. E depois aquela voz séria e dramática (a fazer lembrar Leonard Cohan mais do que uma vez) a versar sobre as mesmas desgraças que são comuns a todos.

Matt Elliott © Leonel Sousa

Ele, ali, homem democraticamente solitário tratou dos seus fantasmas – e de alguns fantasmas presentes na plateia. Tentou pelo menos; saras as feridas. Fê-lo sozinho. Deixou que paisagem absorvesse também aquilo de que é feito: ele que vive em Espanha deixou entrar o flamenco na sua música, deixou que a Itália ou a Rússia tingissem as suas paisagens. Afinal de contas, ele é tão permeável como qualquer outro. E fica-lhe bem essa transparência, em canções que são osso e carne à mostra e que transformam a mais tangível calma em fulgurante erupção (e numa das vezes até num quase drum n bass contagiante). A beleza vai brotando com um ritmo admirável. Matt Elliott foi tudo o que devia ter sido naquela noite. E não é foi por acaso que a sua última palavra foi “grave” (campa). É que a sua música não vive em limbo algum, mas sim nas extremidades. Admiremos-lhe a coragem de se debater de frente com alguns dos temas mais bicudos que a existência humana oferece.
· 14 Mar 2009 · 02:03 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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