US Girls + Coclea
Galeria Zé dos Bois, Lisboa
14 Fev 2009
Em dia de São Valentim, nem todas as propostas amorosas passaram obrigatoriamente pelo jantar romântico à beira-rio ou comédia romântica naive. Tal como nem só de canções do Neil Diamond é feito o legado do romantismo musical, também o enviesamento de Coclea ou U.S. Girls pode dar origem a abraços ternos ou beijos doces. Numa ZDB despida de parafernália lamechas, foi a parafernália de efeitos de Guilherme Gonçalves (também dos Gala Drop), que no meio do público, iluminado por dois discretos néons azuis, iniciou os rituais de acasalamento. Num fluxo sonoro contínuo, onde se puderam discernir dois “andamentos” diferentes, ao qual se poderiam chamar de músicas distintas, Coclea foi construindo uma atmosfera volátil em camadas de sintetizador e guitarra, fugindo sempre à previsibilidade, sem se dispor a obliquidades sabotadoras.

Algo distante do psicadelismo mais feérico de For Those Who Made It Here, We Bid Thee Welcome, prepassou nas duas faixas uma liquidez algo devedora da kosmiche, ao qual não foi alheio um apego mais rock por via dos riffs mais musculados da guitarra. Enquanto o primeiro movimento indiciou a contemplação (sem que isso seja sinónimo de torpor), o segundo momento acerca-se da dança de Manuel Gottsching, em fabulosas espirais de som, ao qual apenas se pode apontar a curta brevidade do efeito, quando a hipnose ainda não estava completa. Óptimo testemunho da vitalidade das músicas mais livres de expressão portuguesa e apelo universal, como o recentemente editado Beams (pela Rafflésia) atestará na cabeça de todos os ausentes.

Projecto solitário da norte-americana Megan Remy, U.S. Girls seria a confirmação do estado de amor insinuado. Alinhável com nomes como Grouper ou Inca Ore, na construção de uma pop fantasmagórica, a sua prestação na Galeira ZDB veio surpreender todos aqueles que (como eu) estavam longe de compreender o fascínio de Introducing. Deixando de lado alguns dos momentos mais gratuitamente opressivos que sabotaram a sua estreia na Siltbreeze, acabou por transparecer o carácter mais etéreo e planante da sua música. Para relembrar a estreia existiu “Prove It All Night“ ou a cover de “Days” dos Kinks. Houve espaço também para mais covers, entre elas a habitual “I Can Hear Music” reconhecida das Ronettes e dos Beach Boys, devidamente assombrada pelo eco.

De humildade palpável e algo perturbadora sem apelar à intrusão forçada, esta estreia de U.S. Girls em território português deixou o coração amaciado para dizer “Amo-te” em noite mercantilista onde o imaginário delico-doce fez questão de mostrar das formas mais inusitadas possíveis.
· 17 Fev 2009 · 18:02 ·
Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com

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