Spectrum
Museu do Chiado, Lisboa
26 Nov 2008
Por entre o povo que preencheu de forma bastante respeitável o rectângulo estreito da “sala de concertos” do Museu do Chiado, seria interessante saber quantos ali estavam exclusivamente pelo trabalho de Pete “Sonic Boom” Kemper como Experimental Audio Research ou Spectrum, nome sob o qual actuou esta noite, ou por serem fãs do seu grupo nos anos 80 com Jason “Spiritualized" Pierce, os excelentes Spacemen 3. Ou mesmo dos Spiritualized, visto que os caminhos diferentes de Pierce e Kemper são, no fundo, um aprofundamento dos caminhos psicadélicos e devocionais da banda de “Playing With Fire”. Sonic Boom, esse, que passou música antes de se chegar à frente, mostrou-se alheio a tais preocupações, bebendo às vezes de uma garrafa de vinho durante actuação de 70 minutos em que procurou que nenhuma das almas presentes se livrasse de ser enredado pela massa de som que provinha dos seus teclados, samplers e outros aparelhos de nome desconhecido por quem não é cromo em tais assuntos.

Com aspecto de quem passa longas noites acordado à volta das suas fieis amigas electrónicas, Sonic iniciou a actuação com um tema dedicado à finada Mary Hansen dos Stereolab. Uma linha melódica simples e repetida (termo inescapável durante o concerto) colocada sobre o que se assemelhava a uns Kraftwerk a ouvirem os ditos Stereolab com o conta-rotações no vermelho onde a distorção e a sujidade começam a arreganhar os seus dentes. A insistência dos sons dá ao quadro o aspecto de um hino para cerimónia solene, quebrada apenas pela intromissão do ruído de interferência de um telemóvel. Quando Sonic canta pela primeira vez, na segunda música, diz “Couldn’t find you” como se quisesse causar vergonha no seu receptor, e a sua maquinaria emite um sinal que atrai e cola, qual teia de aranha, até que algo metálico ganha preponderância como único circuito ainda em funcionamento. Apesar disso, o público parece, por enquanto, apenas concentrado em observar o que Sonic faz em palco, no que não difere muito dos concertos da electrónica menos directamente dançável. Isso não faz, felizmente, que a estratégia musical mude. A voz declamada conjuga-se com o que poderia ser uma intro a um disco pré-1974 dos Pink Floyd, e o teclado emite uma melodia infantil (elogio), ou um som semelhante ao de uma melódica. Como já foi referido, a música de Spectrum parece levar ao extremo uma fatia do que foram os Spacemen 3. As percepções continuam a alterar-se. Agora o tom é algo elegíaco, com a voz e os drones a viverem em simbiose, sem nenhuma se destacar. Por entre o público notam-se já olhos fechados e cabeças balançantes, cada uma talvez imaginando-se testa com testa com Sonic Boom, com este a partilhar consigo a força vital da sua música.

“This is the end”, diz Sonic. A imersão vai gradualmente aumentando. Sentimo-nos a observar uma sonda perfuradora que nunca chega a alcançar o poço de petróleo, enquanto passa por cidades de onde vem um som que não podemos, nem queremos, saber exactamente de onde vem. Procura-se o núcleo, mas sabemos que ele é inatingível. “This is the end”, e temos que aceitar o destino. E esse acaba por ser a saída de “palco” do artista, que regressa poucos minutos depois para tocar a velhinha “Transparent Radiation” só para voz e guitarra, ambas a soarem perfeitas para a ocasião. Chega então altura da última peça, que abre logo com um ritmo violento.As notas mudam devagar, sentimo-nos a regressar à superfície, sem nunca sacudir o medo de sermos engolidos. O fim chega, e as palmas irrompem pela sala. Não foi, talvez, o cenário que esta música merecia. Mas quando se sabe fazer uma coisa tão bem como Sonic Boom o faz há tantos anos, a palavra placebo faz pouco sentido neste contexto.
· 27 Nov 2008 · 09:35 ·
Nuno Proença
nunoproenca@gmail.com

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