Magik Markers / Pumice
Museu do Chiado, Lisboa
19 Abr 2008

Madonna estava certa quando usava uma t-shirt onde se podia ler Italians Do It Better. Nem era tanto a Madonna que estava certa, mas sim o impacto justificado do tal slogan mais ou menos brejeiro. Isto porque é admirável a capacidade dos mais bravos italianos em operar o volte-face – por vezes violento - de que necessitam algumas celebrações para passarem de ocasião estaticamente formal a evento a todos os níveis inesquecível. Os italianos sabem que não há dia de casamento memorável sem a ameaça de alguém chegar a “vias de facto” numa discussão acesa ou numa casa-de-banho de luzes apagadas. Tal como, sessenta anos depois, não faz muito sentido celebrar as bodas de diamante quando um matrimónio nunca foi abalado pelo ciúme, adultério ou instabilidade. O próprio Zidane honrou a tradicional picardia transalpina quando, à cabeçada, mordeu o isco e fez a vontade a Materazzi e ao país que o central trazia ao peito nessa final. O cinema dos realizadores Pietro Germi (Divorzio All’Italiana) e Alberto Lattuada (Mafioso) explicam também que, quando a nódoa cai sobre o pano ou a coisa dá para o torto, isso pode ser favorável à festa rija e nem sempre razão de lamentos sobre o leite derramado. Quando já se confundem as cores do sangue e do vinho chianti, não existe tempo para qualquer tipo de bocejo. Tudo alimenta a exaltação continuada de um estado de excitação.

© Nuno Martins

Um pouco denunciada pelo nome de família, Elisa Ambrogio, a metade feminina dos Magik Markers, é toda essa Itália e restante reino rock concentrado no corpo incrivelmente magnético de uma das mais intrigantes e incontornáveis presenças do passado recente do underground americano. Ao seu lado, conta com um não menos impressionante Pete Nolan que – na permuta de instrumentos quase sempre centrada na bateria - não vacila na hora de pactuar com a vontade tempestuosa de Elisa ou até mesmo de agravar a sua carga. Por uma tardinha só, no Museu do Chiado, a motivação cáustica e algo trágica do duo de Boss passa a servir como mosaico em movimento quase sempre unilateralmente interactivo – um jogo dividido entre a provocação dos dois iluminados sobre o holofote e um público em grande parte sentado (ao que parece, o chão alcatifado a isso convidava).

Antes de se tornarem reconhecíveis os contornos das fabulosas canções de Boss, os Magik Markers deram então forma a um intróito que, de tão absorvente, ata em nó e seca as gargantas à sua volta: foi coisa de petrificar o olhar aquela que levou uma vaga de som continuo a ser gradualmente retalhada por Elisa à medida que, em modo todo-o-terreno, colheu a vibração ao espaço e varreu os cantos à casa com a guitarra, sem deixar de convidar alguns dos presentes a arranhar as cordas do instrumento. Mas ninguém brinca com a Máfia. Foi assim que, enquanto escurecia lá fora, o interior do Museu conheceu uma incrível acumulação de energias, em táctica de catenaccio condenado a deixar de o ser. E deixou, de facto, de o ser quando o erguer ruidoso dá lugar a uma inflamável “Axis Mundi” interpretada num misto de desconforto e "garra" suicida de quem pode agarrar o violino na última sinfonia que conhece o Titanic antes de se afundar.

© Nuno Martins

Fazendo frente a todas as contrariedades, inclusive a uma gigantesca tela branca que (quase) desabou sobre o duo após umas palmadas infligidas pelo seu imparável pólo feminino, o navio Magik Markers manteve-se à superfície: roçou o espaço sideral num momento mais libertino cumprido sobre um arrastado loop cósmico, colocou a nu a candura de Elisa Ambrogio numa “Bad Dream” onde Pete trocou a bateria pela guitarra, esgotou o combustível que restava no depósito quando, já em encore negociado, simulou os efeitos de uma road trip onde o ritmo firme é pé constante sobre o pedal. Os Magik Markers deixaram a pele em palco. Os meninos mantiveram-se sentados à volta da fogueira. Está visto que se a Itália nos aparece pelo caminho no próximo campeonato da Europa, o Ricardo vai voltar ao Montijo com o corpo dorido.

Antes disso, houve tempo para a agradável surpresa oferecida por Pumice, que, através de uma guitarra em efeito de delay e algumas tapes, sujeita a amnésia e névoa as memórias mais palpáveis de uma folk “lá fora” que tem dado bons resultados no viveiro Fox Glove orientado por Brad Rose (ultimamente The North Sea). O ruminar da mais mística natureza neo-zelandesa escutado através de um altifalante que funciona a pilhas incertas na energia reservada.

· 19 Abr 2008 · 08:00 ·
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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