José Cid
Maxime, Lisboa
12 Abr 2008
Ao fundo do palco não há cortina prateada com reflexos brilhantes. O anunciado quarteto é afinal um octeto e é necessário espaço, por isso o feio fundo do palco tem de ficar à vista. De volta ao Maxime, dois anos depois das duas históricas noites do regresso em 2006, José Cid vem acompanhando por uma grande banda e já sabe o que espera. Nesta noite de sábado estão, lado a lado, pessoas que gostam mesmo da música (cinquentões, na sua maioria) e muitos jovens (bêbados, na sua maioria) que lá vão só para rir do artista e gritar “favas com chouriço”.

O espectáculo divide-se em duas partes e Cid lança os trunfos quase todos de início. É dos hinos que o povo gosta e quando o mestre canta “Vinte Anos” ou “Um Grande, Grande Amor” toda a gente sabe os refrões, toda a gente canta. É uma primeira parte feliz, com uma selecção de temas quase irrepreensível. Já a banda não é irrepreensível, mas o guitarrista Mike Sergeant mostra estar ainda em boa forma (e a banda inclui ainda um músico de Esposende, um baterista que tocou com os Além-Mar, um trompetista que toca com os Gift e um cantor de Guimarães que vai lançar um disco chamado “Os Fados do Rock”). É verdade que o som do Maxime estava péssimo e o concerto sofreu com isso, mas a qualidade sonora era o que menos interessava. Alguns arranjos não estavam ao nível dos originais, mas no geral o povo ficou satisfeito. O desfile de êxitos conquistou toda a gente e os sorrisos estavam estampados na cara de todos.

Já a segunda parte acabou por soar a desilusão. Abriu com uma boa música ainda fresca (de 2006), “O melhor tempo da minha vida”, mas depois foi sempre a descer – incluiu uma versão terrível de “Povo que lavas no rio”, uma versão apalhaçada de “A pouco e pouco” (a tal das “favas com chouriço”, para deleite do público que pagou 15€ para se rir) e muita coisa que se pode caracterizar pela expressão popular “encher chouriços”. O que não se percebe, dado o volume de bons temas originais que poderiam ter sido tocados – como “Romântico mas não trôpego”, “A rosa que te dei”, “Longe demais”, “Morrer de amor por ti” e “Barbara” (excelente tema cantado em inglês, lado B do single “Um Grande, Grande Amor”).

No encore voltaram os êxitos (alguns repetidos), o suficiente para o espectáculo terminar em beleza. Mesmo depois de uma imprevista invasão de palco, José Cid era um homem feliz e cantou “como o macaco gosta e banana eu gosto do Maxime”. Foi mais um momento de glória de um cantor e compositor idiossincrático, que fez alguma da melhor e pior música pop portuguesa (em simultâneo). Como sabiamente sintetizou o Rodrigo, “para lá das baladas, dos pormenores foleiros, dos programas da manhã, de todas as frases absurdas que diz neles e em entrevistas, é impossível não gostar dele”.
· 12 Abr 2008 · 08:00 ·
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

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