Michael Gira / Fabrizio Palumbo
Cinema Nimas, Lisboa
25 Fev 2008
Quem, por acidente ou iniciativa própria, descesse os três lances de escadas que levam até à sala do cinema Nimas, em Lisboa, podia deparar-se inadvertidamente com as carcaças polidas de uma existência lendariamente conturbada, uma quantidade considerável de exorcismos enquanto exteriorização de uma redenção que tarda e 2 milhões de motivos mais para que ficassem entorpecidos e estáticos os músculos dos membros inferiores até que a noite se explicasse a si mesma.

Como pista única para tão bizarro sucedido, sobrava na dianteira do palco o rosto de Michael Gira: o contador de histórias, o inesgotável criativo, o curandeiro habituado à terapia do veneno, o enviado que, enquanto destabilizador dos malditos Swans, colheu a chama ao inferno No Wave de Nova Iorque, para, ainda hoje – numa altura em que o género é revisitado em vários livros –, perpetuar o uso dos seus aspectos mais confrontantes (mesmos que esses já não passem por beijar os pés do público, como reconhece o próprio a certa altura). De há uma década para cá, Gira tem sido também o claviculário de um variável palácio que reserva à estadia dos Angels of Light e de canções qualitativamente situadas entre o óptimo e o brilhante, inconformadas com si próprias e com um passado que muito facilmente poderia condená-las a uma fossilização insolúvel.

Michael Gira © Vera Marmelo

Conduzindo a noite restringido à sua voz e guitarra, Michael Gira desafia as condicionantes da sua meia idade bem declarada e emancipa-se a esse feitiço do tempo assumindo uma vez mais o disfarce do deus jovem que vocifera quando irado e que modera essa cólera quando bem-humorado, que uiva um magnetismo lunar em cada refrão (sobre)carregado de intensidade, que sacode o diabo à ponta do sapato a cada vez que malha o pé esquerdo contra a madeira do palco. A sangue frio, “Love Will Save You” é o arrebatador início que demole todos os tabus mantidos em relação à relação mantida por Michael Gira com os temas mais fortes dos Swans. Prontamente se percebe que é nulo o acanhamento e absoluta a entrega do patrão da Young God em relação a todos os filhos bastardos que promove ao seu cancioneiro. A mesma segurança e brio tornam arrepiantes as rendições de “Promise of Water” e “My Brother’s Man”, em representação do mais recente adiamento à saga Angels of Light, We Are Him.

A partir daí, desfilam irrepreensíveis “Purple Creek” e o modo como evita ser meramente freak (apesar da sua narrativa fantasiosa), "Destroyer" e a sua malícia idílica, o saudosismo de “New York Girls”, em jeito de polaroid poética do seu tempo (dominado pelo reinado da mítica sala nova-iorquina CBGB’s). Em jeito de conclusão, “Blind” reafirma a certeza de que até os mais cépticos teriam tido naquela rara oportunidade de ver Michael Gira desenvencilhar-se de todos os clichés que o tomam como figura de museu, quando é obviamente constatável que muito ainda têm para dar a classe e alma imensa deste senhor. Afinal, ainda há terra para velhos.

Por sua vez, não haverá assim tanta paciência para o Signore Fabrizio Palumbo, anfitrião musculado de um circo de tortura, que aparenta ter acabado de afogar a quarta esposa no rio mais próximo, sem que isso o impeça de ter a lata de vir para o palco lamentar a “perda”. O membro dos enigmáticos Larsen, descoberta de Michael Gira e metade dos XXL ao lado dos Xiu Xiu, começa por concentrar sobre si relativa curiosidade, enquanto vai conjugando os vários loops obtidos a uma mesma guitarra e o mais arrojado manuseamento de um violino esquelético. Após esgotadas as soluções, cuja renovação não passa certamente por uma lírica embaraçosamente pobre, Fabrizio Palumbo entretém-se a testar os limites mais insuportáveis de uma massa sonora resgatada à guitarra e – pior - abusa do tempo que lhe era reservado através de desvarios pouco menos que masturbatórios.
· 25 Fev 2008 · 08:00 ·
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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