Cristina Branco
Auditório de Espinho, Espinho
13 Out 2007
13 de Outubro. O rescaldo deste dia permite mostrar como, por vezes, pode ser complicado refutar a ideia de que a nossa identidade nacional deve muito aos chamados “três efes”: Fátima, futebol e fado. A começar por Fátima, lembramos que o local de culto é palco da presença massiva de peregrinos que lá se deslocam este ano não apenas devido ao aniversário das aparições, mas porque se inaugura precisamente neste 13 de Outubro a nova e imponente igreja projectada pelo grego Alexandros Tombazis. Quanto ao futebol, Portugal bate, ao final da tarde, o Azerbaijão, em jogo a contar para a fase de qualificação para o Euro 2008. E não há que enganar: o feito prendeu muito português ao pequeno écran. Como se não bastassem essas duas ocorrências coincidentes, eis que, chegados ao serão, temos a irresistível proposta de ouvir Cristina Branco prestar tributo à maior figura do género Maior da música portuguesa. Falamos, pois, do fado de Amália Rodrigues. Desta vez, o local de “peregrinação” seria o Auditório de Espinho e a adesão traduzir-se-ia em enchente. Ora, quanto a eventos representativos da portugalidade a terem lugar neste sábado estamos conversados: foi um fartote!

Cristina Branco © João Pedro Barros

Cristina Branco nunca foi declaradamente uma fadista. No limite, podemos considerá-la uma cançonetista (sem prejuízo de valor) que vai beber ao fado uma espécie de inspiração criadora, ponto de partida para as belas composições poéticas às quais dá voz. A própria assume, perante o público presente, ter tido sempre um pé fora e outro dentro do fado. Aqui, contudo, assume de pleno direito o papel de fadista de corpo inteiro e, apesar de algumas incursões por Ulisses, o seu último registo, é no fado que centra a sua performance. Nessa condição, há que respeitar certos rituais como o do vestido preto, ao qual só faltou o apêndice do xaile. Mas, mais importante do que o xaile, não podia deixar de marcar presença a guitarra portuguesa, aqui sujeita ao manejo do exímio Bernardo Couto. Os outros artífices dos instrumentos musicais incumbidos de acompanhar a voz foram Ricardo Dias (piano e arranjos), Alexandre Silva (viola) e Fernando Maia (viola baixo), sendo estes dois últimos os mais antigos colaboradores de Cristina Branco nas lides do palco. Juntos prepararam um alinhamento recheado de surpresas.

Cristina Branco © João Pedro Barros

O mérito que coube a Cristina Branco no espectáculo desta noite foi o de fazer esquecer as versões originais de valor inestimável que fazem parte do mais nobre acervo da música tradicional e popular portuguesa. E, a ousadia de levantar a cabeça, e prosseguir segura em semelhantes interpretações não está ao alcance de qualquer um. E é vê-la dar brilho a “Havemos de ir a Viana” ou “Povo que lavas no rio”, majestosos hinos da autoria de Pedro Homem de Mello eternizados pela diva Amália. Mas há mais “empréstimos” felizes. Alexandre O’Neill é o génio por detrás de "Formiga Bossa Nova", poema celebrizado por Adriana Calcanhotto, e Manuel Alegre a pessoa que esculpiu as palavras de “Meu Amor é Marinheiro”. Ambos os temas tiveram um brilhozinho diferente, fruto de uma interpretação audaciosa , e, ainda assim, fiel às premissas do género.

Ao cabo de uma hora e meia de emoções à flor da voz, o tempo suficiente para revelar umas duas dezenas de canções, o público mostrava-se acima de tudo agradecido. A alma tinha recebido o alimento desejado. E foram muitas as almas que procuraram reconhecer naquela noite a nostalgia que brota do coração lusitano. Idade para este sentimento latente, não existe. Estavam, por isso, representadas, na plateia, várias faixas etárias. O Auditório de Espinho vai certamente ter um lugar destaque no seu livro de memórias para a passagem graciosa e ao mesmo tempo possante de Cristina Branco. De resto, importa ainda reconhecer nesta sala de espectáculos a capacidade de prestar contributo a uma agenda cultural do Grande Porto cada vez mais entusiasmante. O futuro pode bem ditar novas e agradáveis surpresas para este auditório.
· 13 Out 2007 · 08:00 ·
Eugénia Azevedo
eugeniaazevedo@bodyspace.net

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