Festival Heineken Paredes de Coura 2007
Paredes de Coura
13/14/15 Ago 2007
Dia 14

Pelas 18 horas da tarde ainda não se sabia mas o segundo dia do Festival Heineken Paredes de Coura seria um dia de chuva. A ameaça já estava nos céus por essa altura mas só se iria concretizar algum tempo depois. Antes disso houve por exemplo a pop descontraída dos Spoon. A banda de Austin, que lançou recentemente Ga Ga Ga Ga Ga (um titulo um bocado genial), chegava a Paredes de Coura num horário contestado por alguns dos fãs da banda mas nem por isso os Spoon desiludiram. Pode-se quase dizer que as canções da banda seguem numa linha coerente (ou idêntica) que tem em "The Way We Get By" o seu momento mais alto. O momento em que a apresentaram ao vivo foi um dos melhores do concerto. Pelo meio apresentaram também canções do tal último disco com título genial, mostrando que os Spoon, com mais de 10 anos de carreira, continuam de boa saúde. Foi uma boa forma de começar o dia no palco principal.

Pouco depois Paredes de Coura mudava radicalmente de ambientes. Entravam em palco, de maneira fulgurante, os Gogol Bordello, outro dos concertos mais esperados do festival depois de uma actuação muito elogiada em Sines. O aspecto dos músicos em palco é em tudo semelhante à música que apresentam em palco: punk cigano. Não há outra forma de dizê-lo. Bateria e guitarras furiosas, acordeão e violino, muita confusão em palco e um cenário idêntico junto do público. A energia dos Gogol Bordello, liderados por Eugene Hütz, foi direitinha aos espectadores. Goste-se ou não, esta é uma banda que sabe fazer a festa e dar ao público o que o público quer - o que não quer dizer que a repetição não seja uma constante. É bem possível que passem a visitar o nosso país de forma regular.

Da Austrália chegaram os Architecture In Helsinki com disco novo e com boas razões para fazerem a festa. Places Like This foi o disco com que a banda se mostrou a Paredes de Coura. Os membros do colectivo foram alternando de instrumentos e posições, trazendo para as suas canções a energia que é apanágio da banda. Canções pop com boas soluções de diversificação, ricas no seu desenvolvimento. O prémio de melhor momento do concerto foi direitinho para “Heart It Races”, momento extra tropical e de fácil e rápida fruição.

Foi com a actuação dos incontornáveis Mão Morta que Paredes de Coura deixou de ser festival de Verão para passar a ser um festival de chuva. A banda bracarense voltou mais uma vez ao festival minhoto, interrompendo assim a série de concerto de apresentação do espectáculo “Maldoror”. Adolfo Luxúria Canibal liderou com o carisma de sempre uma banda em revisão da carreira, num percurso que incluiu temas como “E Se Depois”, “Tu Disseste”, Em Directo (Para a Televisão)” e “Vertigem”. “Anarquista Duval” fechou um concerto em que Adolfo, entre outras polémicas, lançou a confusão acerca do futuro (e continuação) da banda. Apesar de não ter sido um dos melhores concertos da banda (o concerto no festival de 2004 foi superior), os Mão Morta são sempre algo de especial ao vivo.

O “momento recordar” do Festival Paredes de Coura era claramente o concerto dos New York Dolls, banda fundamental no nascimento do punk rock. New York Dolls, editado em 1973, é um dos discos fundamentais da década. Tantos anos após o final da banda, regressam aos discos (com One Day It Will Please Us to Remember Even This, de 2006) e também aos palcos, apostados em mostrar ao mundo o que ainda valem. Apesar da idade, a banda de David Johansen e Sylvain Sylvain foi capaz de trazer a palco uma pequena porção daquilo que seriam os concertos da banda nos inícios dos anos 70. A surpresa do concerto: uma versão para “Piece of My Heart” da obrigatória Janis Joplin. O momento da noite, claro: “Personality Crisis”, no encore.

A noite continuava com as guitarras nas mãos de um dos seus mais excitantes “intérpretes”: J Mascis, senhor dos Dinosaur Jr., o cabeludo guitarrista, talentoso dos solos de guitarra. Beyond é o disco que celebra – e bem – o regresso dos Dinosaur Jr. à sua formação original: Murph, J Mascis e Lou Barlow. Em Paredes de Coura mostraram porque é que a energia está ainda toda lá: “Almost Ready”, do novo disco, é uma explosão sónica a la Dinosaur Jr., que foram obviamente ao passado resgatar alguns dos melhores temas de uma longa carreira. A actuação, regada constantemente por chuva, mostrou que os Dinosaur Jr. fazem tanto sentido hoje como no inicio dos anos 80. Estas guitarras valem ainda o tempo, estas canções não têm um pingo de vergonha de serem rock. Foram justamente cabeças de cartaz e não defraudaram expectativas. Por culpa deles (e de outros), terça-feira rendeu bem mais do que o primeiro dia de palco principal.
· 13 Ago 2007 · 08:00 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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