Jazz Em Agosto 2007
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
03-11 Ago 2007
A edição 2007 do festival Jazz Em Agosto levou à Gulbenkian onze concertos, dois filmes e duas conferências - tudo repartido em dois blocos - nos dois primeiros fins-de-semana de Agosto. O trio de históricos de Chicago Muhal Richard Abrams / George Lewis / Roscoe Mitchell inaugurou o festival, com uma grande lição de improvisação electro-acústica. Na tarde de sábado os franceses Hubbub deram um excelente exemplo de improvisação reducionista, demonstrando muita prática de tocar em conjunto e uma grande exploração dos instrumentos. Ainda nesse mesmo dia, no anfiteatro ao ar livre, o Nik Bärtsch’s Ronin apresentou o seu “zen-funk” - rígido, milimétrico, demasiado estático.

O primeiro dos três concertos do domingo foi da responsabilidade da dupla nacional Carlos Zíngaro / Jorge Lima Barreto e assentou na livre improvisação – Barreto livre, Zíngaro mais atento e reactivo. A Low Frequency Tuba Band - quatro tubas (Sérgio Carolino, Oren Marshall, Jay Rozen, Marcus Rojas) e uma bateria (Alexandre Frazão) – revelou-se dos mais originais projectos do festival, ao interpretar temas de Zappa e Hendrix com muita inventividade. Para encerrar o primeiro bloco de concertos a norueguesa Crimetime Orchestra apresentou no anfiteatro ao ar livre a sua mescla de jazz contemporâneo com pulsação rock – menos estruturada e interessante que no disco “Life Is a Beautiful Monster”, ainda assim capaz de explosões free intensíssimas.

Joe Fonda © Nuno Martins

O segundo bloco de concertos foi iniciado no auditório ao ar livre com o projecto Joe Fonda’s Bottoms Out, que apresentou uma proposta mais ortodoxa (mais próxima das noções conservadoras da palavra “jazz”), sendo as composições do líder/contrabaixista Fonda interpretados por um conjunto de belos instrumentistas – um dos espectáculos mais marcantes deste Jazz Em Agosto ’07. Na noite seguinte o Quartet Noir (Urs Leimgruber, Marylin Crispell, Joëlle Léandre, Fritz Hauser) mostrou comunicação e interligação fabulosas, concretizando uma grande música plena de sensibilidade nos pequenos detalhes – e o final do concerto foi marcado por um episódio em que o público “levou” cds que estavam afinal para venda.

O último dia do festival abriu com o solo de Joëlle Léandre na sala polivalente, um óptimo espectáculo onde a contrabaixista abordou material variado – de peças de Cage e Scelsi e composições próprias a improvisações livres. O quarteto vocal Timbre (Lauren Newton, Elisabeth Tuchmann, Oskar Mörth, Bertl Mütter) deu um impressionante espectáculo ao explorar a voz nas suas diversas potencialidades. E pelo meio dos concertos houve ainda espaço para duas informais conferências de Muhal Richard Abrams e Ornette Coleman e dois filmes-documentários - o datado “Ornette: Made In America” (Shirley Clarke, 1985) e o magnífico “My Name Is Albert Ayler” (Kasper Collin, 2005).

Joëlle Léandre © Nuno Martins

E depois houve Ornette. Escalado para o encerramento do Jazz Em Agosto, o quinteto do grande Ornette Coleman esgotou o grande auditório da Gulbenkian e deixou ainda muita gente à porta. E quem entrou não conseguia esconder, enquanto aguardava que o concerto começasse, um nervoso miudinho pelo privilégio de assistir a um espectáculo do último dos gigantes (dos verdadeiros gigantes) da história do jazz. Ele entrou, fato azulão e chapéu. E a banda, atrás: dois contrabaixos (Tony Falanga, Charnett Moffett), baixo eléctrico (Al MacDowell) e o filho Denardo na bateria. Começou a tocar o seu inimitável saxofone alto e foi desde logo impossível não ser tocado pela beleza do seu som. Apoiando-se maioritariamente no material do mais recente disco “Sound Grammar”, Ornette abordou ainda outros temas de períodos variados da sua carreira, sempre com um som forte, marcadíssimo. Apresentou o seu fraseado típico, intenso em cada sopro – apesar de ter sido recentemente hospitalizado, depois de ter sofrido um ataque no festival de Bonnaroo (Tennessee), mostrou estar recuperado e em boa forma. Ocasionalmente, trocou o saxofone pelo trompete - ao longo a carreira Ornette nunca se deixou ficar preso a um estilo, nem a um só instrumento – e só não tocou violino, mas foi no saxofone que actuou a maior parte do tempo e foi o som do saxofone que o público aplaudiu incansavelmente no final. Se bem que se poderiam questionar algumas opções da banda que o acompanhou, a verdade é que a presença de Ornette era tão brilhante que tudo o resto perdia importância. O revolucionário saxofonista que gravou The Shape of Jazz to Come, o pai do “Free Jazz”, o criador (com Coltrane e Miles) das revoluções que levaram o jazz a evoluir até à modernidade, estava ali. Esteve no palco a tocar durante uma hora, com todo o fôlego e brilhantismo. E voltou ainda para um encore com “Lonely Woman”, música emblemática, emotiva, comovente – como todo o concerto, aliás. A beleza é uma coisa rara e nós fomos afortunados por poder apreciá-la.
· 03 Ago 2007 · 08:00 ·
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

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