Sérgio Godinho
Teatro Maria Matos, Lisboa
16 Mai 2007
Aplauda-se, antes de mais, o número crescente de minitemporadas de cantores portugueses nos teatros lisboetas. Numa mancha temporal de poucos meses houve Cristina Branco e Camané no São Luiz, Vitorino na Trindade e agora Sérgio Godinho no cada vez mais dinâmico Maria Matos. Ganha-se intimidade, proximidade ao palco e também uma mais provável disponibilidade de agenda para assistir ao espectáculo.

© Sílvia Silva

Foi então num acolhedor Maria Matos que Sérgio Godinho decidiu, por ser dado aos delitos, roubar o título do seu mais recente cancioneiro e fazer dele o nome da apresentação, às gentes da capital, de Ligação Directa. Mas uma obra é uma obra e uma obra de mais de 300 canções é uma obra de mais de 300 canções. Não foi por isso de estranhar que depois de um boa-noite risonho se fizesse escutar o “Primeiro Gomo da Tangerina”, com mais de 10 anos, repescado ao Elixir da Eterna Juventude. Atrás, em meia-lua como tem sido hábito, os Assessores fazem o seu trabalho de polimento e refinamento das canções, com uma coesão com Godinho à prova de bala.

Não que tivesse de ser, mas à terceira foi de vez e Ligação Directa entrou em cena. Não passou muito tempo desde o fim de “Dias Úteis” até que um coro de “uh” enchesse a sala, introdução mais que indicada para uma “Deusa do Amor” que não ficaria mal numas Biografias do Amor se estas ainda estivessem por editar. A primeira ovação ficou guardada para a mais das conhecidas músicas do último disco, “Às Vezes o Amor”, mas não terá sido tão notória quanto aquela que o refrão de “Arranja-me um Emprego” fez entoar. As músicas iam-se entremeando (às vezes mais demoradamente, como quando João Cardoso se pôs a jogar cartas no laptop e se esqueceu que havia o mais recente hino nacional, “Só Neste País”, para tocar), com a certeza de que com o melhor letrista da música portuguesa a fossilização é um conceito que só fica mesmo bem nos livros científicos de biologia. Os volta-faces são frequentes, “Com um Brilhozinho nos Olhos” poderia ser compilada com uma mais que mão-cheia de versões de si própria, sempre com aplausos e histerias.

© Sílvia Silva

Sérgio Godinho lembrou que já havia pisado aquele palco antes, onde acabou a digressão de 1978. Que se vê e ouve, 30 anos depois, além das paredes estucadas de novo, soalho menos rangedor, do maior conforto, no palco daquela sala onde esteve o mesmo Sérgio Godinho? “O Primeiro Dia”, “A Democracia”, “O Homem Fantasma” e “Liberdade” podem eventualmente já ter sido ali escutadas pelos ouvidos que em 78 marcaram presença. Mas a ideia, claro que é um sofisma, é que elas repousaram sempre ali, envelheceram bem com a idade, adaptaram-se às obras de modernização da casa e tiveram agora o toque do príncipe sobre a moura encantada. Mas aquele teatro não é mais símbolo da carreira de Sérgio Godinho do que qualquer outro, ele faz-se sentir em casa onde quer que vá. Sérgio Godinho é um dos mestres da música cantada em português e um pretexto para ir a um concerto seu nunca será, quase certamente, mais do que a descoberta de um não-pretexto.
· 16 Mai 2007 · 08:00 ·
Tiago Gonçalves
tgoncalves@bodyspace.net

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