Larkin Grimm / Norberto Lobo
Galeria Zé dos Bois, Lisboa
27 Abr 2007
Será, decerto, repetitivo o que se escreve neste parágrafo, mas continuam a escapar as razões que fazem um concerto marcado para as 23:00, hora já de si adiantada, começar 50 minutos mais tarde. Um espectador, de São Francisco, informava que na sua terra os concertos têm início às nove da noite. Não querendo dizer que todos os concertos na Galeria Zé dos Bois devessem começar a essa hora, a verdade é que nada continua a ser feito para quebrar o ciclo vicioso do público que chega mais tarde porque já sabe que não se começa a horas, e não se começa a horas porque ainda não há público. Fará sentido para quem tem uma noite de copos à sua frente um concerto terminado à 01:30. A esses pouca diferença fará. Mas falamos de um fenómeno repetido em várias salas, repetidas vezes. Para quando o quebrar desta tradição? Para quando o direito de quem não quer dormir três horas antes de trabalhar de assistir a um concerto e ir descansado para casa?

Passando ao, ainda e sempre, mais importante, a música, esta começou com um Norberto Lobo que, notava-se, já começa a angariar algum culto por entre a plateia que brindou as suas peças com longos e fortes aplausos. Norberto é um produto da recuperação de nomes dos exploradores da guitarra acústica ocorrida na imprensa, nos blogs, e nas salas de espectáculos – fora ali que Steffan Basho-Junghams tinha tocado há uns anos – que chega a Portugal às mãos de um intérprete que já denota um estilo pessoal e uma destreza considerável.

Recorrendo maioritariamente ao dedilhar, do mais lento ao mais acelerado, Norberto Lobo entra num jogo do gato e do rato com quem o assiste, e procura localizar os locais geográficos aonde os seus acordes melhor encaixam. Da indispensável terra americana, podemos viajar numa fracção de segundo para algo que lembra uma de muitas músicas tradicionais portuguesas. Uma cover de uma canção de Carlos Paredes, “Mudar De Vida”, onde estas características se mantém, é uma das melhores provas para tal argumento. E Norberto Lobo não se fica por aqui, fazendo ouvir igualmente tons andaluzes e norte-africanos em esporádicas passagens, ou ecos de uma folk inglesa como entendida há décadas pelos Incredible String Band ou Caravan, sempre com uma fluidez que impressiona pela concentração exibida. Os aplausos foram o suficiente para trazê-lo de volta ao palco para mais uma canção. Se o culto se alargar, será completamente merecido.

Larkin Grimm é alta, é sulista – apesar de afirmar disfarçar o sotaque para que melhor a compreendam - e tem muitos temas para contar na sua música. A maior parte deles ligados à natureza, à terra, à sua ligação com as mesmas. O risco de seriedade e bolor “new age” desaparecem graças à descontracção e interacção com o público que Larkin sabe ter, tornando as suas canções em agradáveis doses de uma folk à beira de se tornar grito primordial, e com apreciável qualidade melódica mantido por longas estrofes.

Os agudos que utiliza em várias canções, e o palavreado denso das mesmas, remetem para a memória de Joanna Newsom, embora existam diferenças na imagética das mesmas. Larkin toca sozinha, com um instrumento de nome desconhecido do Bodyspace ao colo, ou com a amigável guitarra acústica, e chocalhos amarrados ao tornozelo direito para percussão, sem que isso impeça as suas canções e histórias de encher a sala. Perguntou-nos o que queríamos (“Free drugs” foi uma das respostas), e, em jogos fonéticos, transformou a plateia em alcateia de lobos e, mais tarde, bando de serpentes, sempre com sentido e propriedade numa música que ressoa graças a uma melodia que nunca perde o pé, e arrasta a sala com ela.

Larkin teve direito a um muito pedido encore, terminando a sua actuação como havia começado, com a escrita de canções vista pelos seus olhos que ultrapassam simples definições de “singer-songwriter”-ismo ou do que é ou pode ser a folk. É música exigente em termos de atenção que pede, sem nunca se esquecer de retribuir com classe. Aguardam-se futuras zoologias.
· 27 Abr 2007 · 08:00 ·
Nuno Proença
nunoproenca@gmail.com

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