Bonnie ‘Prince’ Billy / Faun Fables
Maxime, Lisboa
05 Abr 2007
Só pode equivaler a barganha qualquer quantia a ser dispendida na compra de bilhete para testemunhar in loco toda a generosidade de que é capaz Bonnie 'Prince' Billy no cumprimento da circunstância que, pela magia até ela atraída, merece um nome mais digno e concreto que “concerto”. Até porque a sensação de quase milagre começa a instalar-se no cabaret Maxime a partir do momento em que se torna imparavelmente espontânea a digressão por mais que muitas facetas dadas a conhecer por Will Oldham, o cidadão norte-americano que preferiu ser nomeado principesco, mesmo quando no exterior do palácio que partilha com os familiares de sangue e de criatividade.

Sem a obrigação de obedecer a um guião estrito (pese embora um caderno sobre o chão) ou impressionar conforme timing pré-estabelecido, o glorioso desdobramento de Bonnie 'Prince' Billy toma como partida uma figura humana de pé em palco e termina na nuca e rosto coberto de barba que oferece o ser envolto em incógnita que abandona o palco após duas horas de entrega incondicional. Duas horas suficientes à condensação do hipnótico contador de histórias especializado na identificação do momento em que o equilíbrio do mundo parecia depender de uma paixão ora condenada, ora estabilizada num estado idilicamente country, que ganha colorido com o contraponto harmonioso garantido por Dawn McCarthy, metade dos Faun Fables, que ofereceram uma prestação bem simpática (e com direito a funk-folk) na primeira parte, e colaboradora presente no último The Letting Go.

Duas horas que sobram igualmente à revelação natural do comediante casual (que relata casualidades provocadas pela testosterona no frio da Rússia), do comunicador cordial que acede a pedidos oriundos do público, protegido pelo confortável anonimato que oferece a escassa luminosidade do Maxime, e que, depois, os combina em medleys que abarcam mais do que aquilo que se julgaria possível nas primeiras horas da Sexta-feira Santa. Cento e vinte minutos proporcionais ao sintetizador de cultura pop (ainda se escutaram vestígios de R. Kelly à voz de Oldham) e country FM (não contém ironia a cover de Willie Nelson “On the Road Again”), ideais ao pregador bíblico que alia humor a uma solenidade Johnny Cash no combinado “John, the Baptist”.

Duas horas que conhecem clímax no Billy orador que deixa em loop a mesma passagem de guitarra para, em duas majestosas ocasiões, mais livremente gesticular e discursar evocando o teatralismo próprio dos grandes comícios de cariz político e religioso que fizeram história no seu país. Fá-lo caminhando pelo palco como se integrado num périplo em torno da América de outrora que dispunha de lugar para heróis românticos que quebrassem com a regra de mercenários. Quando Oldham dispensa a projecção altifalante que lhe oferece o microfone, depende apenas da poesia e, nos momentos em isso acontece, silencia-se quase por completo a sala e sente-se um arrepio perpétuo daqueles pelos quais, às vezes, se aguardam anos a fio.

Todos traços distintos e todos partes integrantes do mesmo Will Oldham, que, de modo absolutamente genuíno, prova que a folk serve como termo sinónimo para a espiritualidade que provém de uma comunhão sem filtros ou suavizações formais (daí que o próprio desafine se o exacerbar emocional o obrigar a tal). Isso só viabiliza o renascer do porta-voz aos olhos dos mais cépticos face a The Letting Go e dos que temiam encontrar alguém mais reservado ou casmurro. Viva Bonnie 'Prince' Billy e um dos mais sublimes momentos musicais a que Lisboa assistiu até agora este ano.
· 05 Abr 2007 · 08:00 ·
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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