Legendary Tiger Man
Teatro Académico Gil Vicente, Coimbra
30 Set 2003
Enquanto a chuva incómoda se vai manifestando lá fora, no interior de um Teatro Académico Gil Vicente requintado vivem-se momentos de um calor diabólico. Não literalmente, entenda-se, mas – e esta teoria está comprovada - quando o blues é rei é possível pensar-se em sol e sentir, de leve, uma brisa quente mesmo que, num mundo exterior, se experiencie o maior temporal da história da Humanidade. Legendary Tiger Man – Paulo Furtado, ex-Tédio Boys e membro dos Wray Gunn - é o bluesman de serviço, «Super 8 Movies To Play The Blues» o nome dado ao espectáculo audiovisual preparado por André Cepeda, Pedro Medeiros e pelo próprio Paulo Furtado para esta noite. Um concerto de contornos particulares e especiais é esperado, pois então.

É, assim, sob este pretexto e perante uma sala bem composta, que Legendary Tiger Man, a «one man band» de Paulo Furtado, sobe ao palco, por volta das 22 horas. As primeiras palavras proclamadas - «I got the blues, baby» - sintetizariam, desde logo, o sentido que o espectáculo iria tomar. Furtado tem o blues nas veias e esse facto ninguém poderá negar. O repertório eleito para alinhar o espectáculo – entre temas do álbum Naked Blues, temas a integrar o álbum Fuck Christmas, I Got The Blues [com saída para os escaparates prevista para este ano], e versões dos Wray Gunn e uma de Hasyl Adkins – dissipa as dúvidas de quem está presente. Tiger Man tem Mississipi no coração, e mãos, pés e garganta de bluesman. Pelo menos é essa a impressão que nos é reservada quando, sozinho em palco, munido de uma guitarra eléctrica e outra acústica, de um kazoo, de um bombo e de pratos de choque, tem a capacidade de nos embriagar o corpo e nos transportar para Delta. E daí para o rock’n’roll e para o punk. Com simplicidade, carisma e um sentido de humor apurado. E, desta vez, com imagens a passarem-lhe atrás das costas.

Depois de implorar para que não o assassinassem (num dos temas novos), eis que Legendary Tiger Man fala de desejo e posse. O tema swing/cool «I’ll Make You Mine» antecede, assim, «o hino sobre ossos partidos» que é «Break My Bone». Na tela, um homem é esmagado por um carro. Antes, aviões, serpentes e mulheres despidas haviam já passado em frente aos nossos sentidos. A dada altura, lufadas de fumo fundem-se com as imagens. Numa das suas mudanças de guitarra, Furtado segreda-nos que a vida de «one man band» é complicada. Minutos mais tarde confessa-nos que as imagens que estão a acompanhar a música não estão a obedecer à ordem planeada. Sai-lhe da boca um natural «que se foda». Num novo quase-monólogo, admite que os «super 8» (a maioria a preto e branco) que vão passando na tela são «pedaços de vidas em filme de quem não sabemos os nomes» e espera que não o processem por não ter pago direitos de autor. Supostamente, serão apenas vidas já sem vida. E o fora-da-lei lá vai cantando à Jon Spencer - entre o sensual sussuro e o grito varonil - histórias de comboios. «Naked Blues», demasiado cru para ser verdade, já tinha passado à historia mas o som saído da guitarra continuava a representar a nudez. [Pergunta retórica: não será o punk uma espécie de «naked blues»?]

Em resposta às piadas vindos do palco – do genial ao patético – o público começa a reagir. Das tímidas palmas aos piropos e à conversa cúmplice, meio passo. Daí aos pedidos intermináveis de encores, um quarto de passo. Legendary Tiger Man satisfaz os pedidos dos mais sedentos e regressa a palco, afirmando ser um indivíduo fácil e com muito prazer naquilo que faz. Nós tanto acreditamos que o chegamos a confirmar pelos sentidos. «Sometimes I Miss You» é um dos temas tocados, seguido de uma pequena incursão pelo repertório dos Wray Gunn em registo punk-funk. No encore à frente Tiger Man anuncia uma versão. Alguém no público põe a possibilidade, em voz alta, de ser de Johnny Cash. O bluesman desmente mas diz que poderia ser. Promete violência e cumpre-a em «She Said», um original de Hasyl Adkins. No derradeiro encore, Tiger Man esgota o repertório. Alguém lhe pede para tocar «aquela». Outro alguém pergunta-lhe «somos punk ou não?». Ele responde com um sorriso. Após «All Night Long» (dos Wray Gunn) encerra um espectáculo, onde som e imagem, funcionaram, em combinação, de forma quase perfeita. E fica no ar um desejo: o de ficar na sala a noite dentro, rodeados de blues e derivados e de filmes provocantes q.b.
· 30 Set 2003 · 08:00 ·
Tiago Carvalho
tcarvalho@esec.pt

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