JP Simões
Santiago Alquimista, Lisboa
20 Dez 2006
Estávamos em Setembro quando foi anunciado o lançamento do disco a solo de JP Simões. Depois dos projectos Belle Chase Hotel e do Quinteto Tati, a expectativa para o passo seguinte da carreira do cantor e compositor de Coimbra era elevada. Entretanto o lançamento oficial do novo 1970 foi sendo sucessivamente adiado e o disco já não estará nas prateleiras das lojas este ano - o disco mais aguardado em 2006 (e provável candidato a disco do ano) acaba por só ter distribuição oficial em 2007. Agora, para este (reagendado) lançamento JP Simões apresentou-se ao vivo no Santiago Alquimista, numa mini-tourné que passa também pelo Porto e pela “sua” Coimbra.

O artista foi recebido por uma sala muito bem composta, apesar do concerto estar agendado para uma hora tardia (23h), apesar de se realizar a meio da semana e apesar do preço dos bilhetes (10€). JP fez-se acompanhar por uma banda de média dimensão (com um animado coro incluído), ao contrário do que aconteceu no concerto na Galeria Zé dos Bois em Junho, onde apenas estava acompanhado em palco pelo “inseparável” Sérgio Costa. Particularmente importante foi a intervenção precisa do fliscorne de Tomás Pimentel, que acrescentou uma sombra aveludada à interpretação de cada tema.

JP Simões © Joana Beleza

A âncora do espectáculo foi obviamente o novo 1970, mas o cantor aproveitou para repescar outros temas próprios, recorrendo bastas vezes ao seu projecto “A Òpera do Falhado” (onde estão guardadas algumas da suas melhores composições). Apesar de um início algo titubeante (o nervosismo, sempre o nervosismo) com “Só Mais Um Samba”, o espectáculo foi crescendo até atingir uma elevada intensidade. “1970 (Retrato)” é um dos momentos mais bem conseguidos, polaroid desencantada de uma geração que se “estatelou docemente contra os céus”. Outro ponto de elevada distinção foi a canção “Micamo”, outro belo instantâneo do novo disco, que dá muito espaço para a mediação do fliscorne que acrescenta dramatismo à carga nostálgica já imposta pelo jogo melódico e harmónico – era importante referir a beleza das letras, mas é difícil racionalizar muito quando alguém pergunta “quantos milhões de estrelas conseguiste pintar?”.

As melhores músicas do novo 1970 são guardadas para esta segunda parte do concerto e “Capitão Simão”, a tal canção que é dedicada ao filho, está incluída nesse lote. Segue-se “Inquietação”, cover de José Mário Branco, que honra a dimensão do original. Para o final oficial do concerto fica guardado o dueto com a brasileira Luanda Cozetti na belíssima “Se Por Acaso (Me Vires Por Aí)” - “e ouve-se ao fundo uma triste canção de paz e amor”. Os músicos ainda regressam e há uma versão de “Gota d’Água” de Chico Buarque - é mesmo verdade, Chico é uma referência importante, assumidíssima, mas em JP há muito mais. JP está feito um compositor cada vez mais concentrado e cada vez com voz mais própria. Depois das aventuras Belle Chase Hotel e Quinteto Tati, as canções estão cada vez menos desempoleiradas, mais despidas, mais focadas e a originalidade é cada vez mais evidente. Estas canções merecem toda a atenção, ignorando o preconceito da reverência buarquiana. 1970 não estava destinado a ser o grande disco da música popular portuguesa em 2006; sê-lo-á em 2007.
· 20 Dez 2006 · 08:00 ·
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

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