Sérgio Godinho
Casa da Música, Porto
07 Dez 2006
Ninguém esquece os heróis da música popular portuguesa. Os tempos mudam, mas a história nunca lhes vira as costas. Sérgio Godinho é um exemplo vivo da atenção prestada aos mestres. A admiração surge de todos os quadrantes etários e o seu nome insiste em aparecer sempre quando novos valores da música portuguesa optam por cantar na sua língua. Ora, este nome incontornável da MPP lançou, este ano, um novo registo de originais, intitulado Ligação Directa. Com ele surgem as iniciativas de promoção e os concertos. Acontece, porém, que as apresentações ao vivo, neste caso, não abundam. E, como "coisa rara, coisa cara", os espectáculos previstos para o Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, e este, na Casa da Música, mostraram-se concorridíssimos, tendo os bilhetes esgotado em pouco tempo. Depois de Sintra, era a vez do Porto receber o filho da terra.

À hora marcada, Sérgio Godinho sobe ao palco. Não se recordará certamente de quantas vezes terá cumprido este ritual, mas dificilmente lhe escapará da memória a plateia que encontrou pela frente. Centenas de pessoas acorreram à chamada da sala de espectáculos portuense e lotaram a sala Guilhermina Suggia. Sem delongas, tem início o desfile de canções previstas para o serão. E o arranque conduziu os presentes à década de noventa, à qual pertencem "O Primeiro Gomo da Tangerina" e "Dias Úteis". Ao cabo deste regresso ao passado, o protagonista saúda o público e promete presenteá-lo com "ligações directas" ao longo da sua actuação. Considerando o estilo sóbrio com que se apresenta, a promessa só poderá remeter para a interpretação de temas do seu mais recente trabalho, que irá percorrer na íntegra. As primeiras amostras são "A Deusa do Amor" e "Às Vezes o Amor", este último o cartão de visita de Ligação Directa, interpretado numa altura em que o concerto evolui a meio gás com um protagonista tranquilo, de mãos nos bolsos, a abrir caminho por entre um alinhamento bem estudado. Descontraído, Sérgio Godinho detém-se perante a visão de um lugar vazio na plateia e especula sobre as razões que levaram o portador daquele lugar a ausentar-se do espectáculo.

Sérgio Godinho © Eugénia Azevedo

A história fez-se dos presentes. O público reconhece "Arranja-me um Emprego" e mostra que já digere com facilidade o disco mais recente, acompanhando com palmas o refrão de "Marcha Centopeia". Sob o jogo de luzes voltado para o palco, Sérgio Godinho faz um dos muitos possíveis resumos da sua multi-facetada carreira artística. E recorda, resvala para a nostalgia, convida o público a acompanhá-lo através da máquina do tempo. Apeamo-nos em 1988. Grande parte do público tem idade para saber o que se pretende relembrar com esta paragem, mas Sérgio Godinho dá uma ajuda. Alude a uma série infantil de televisão e ao seu trabalho com Jorge Constante Pereira. A série era então "Os Amigos de Gaspar", da autoria de João Paulo Seara Cardoso, e Sérgio Godinho o autor das letras do disco de suporte, para o qual Constante Pereira compusera a música. Uma homenagem que o levou a interpretar "É Tão Bom".

Como que arrebatado pelo peso das recordações, Sérgio Godinho senta-se para interpretar "O Velho Samurai", parecendo ter em mente o herói da canção. Quando se levanta, reflecte sobre o comportamento dos portugueses, aquele que conhecemos ser um tema recorrente das suas letras. Aqui serve-se daquela a que designa por "a nossa teia de depressões" para criar a introdução perfeita ao tema "Só Neste País", faixa que encerra Ligação Directa, onde são debitadas palavras fortes efusivamente aplaudidas. O repertório prossegue. Depois de uma série infantil, chega a vez de recordar um filme, cuja banda sonora integrava o próximo tema, "A Balada de Rita". Trata-se do filme "Kilas, o Mau da Fita", da autoria de José Fonseca e Costa. Tempo ainda para assinalar presenças especiais no público: a de Carlos Tê e de Hélder Gonçalves e Manuela Azevedo dos Clã, colaboradores de Godinho num passado recente. Hélder Gonçalves havia composto a música para "O Big One da Verdade", inserido em Ligação Directa, ao passo que Manuela Azevedo emprestara a voz a "Dancemos no Mundo", um tema de Lupa, o antecessor do disco deste ano. Ambos constaram do programa desta noite. Previsivelmente ovacionados, "Com um Brilhozinho nos Olhos" e "A Democracia" surgiriam antes ainda da saída de palco do intérprete.

O regresso não tarda, sob forte aplauso, trazendo mais temas propícios a reflexões. Pelo meio, os comentários dão conta de que Sérgio Godinho não pretende privar-se da crítica social. "Os portugueses não assumem as coisas", afirma. Antes de deixar novamente o palco, ao qual regressará ainda por duas vezes, aproveita para apresentar o seu ensemble de músicos, os mesmos creditados no disco Ligação Directa: Sérgio Nascimento, Miguel Fevereiro, João Cardoso, João Cabrita, Sara Corte-Real, Nuno Espírito Santo e Nuno Rafael, este último igualmente responsável pela produção do disco. Para deleite do público, ainda foi possível ouvir "O Primeiro Dia", retirado de Pano Cru, frequentemente considerado a obra-prima do cantor. Para o fecho definitivo, estava reservada uma manobra de aproximação à cidade da qual se faz de filho pródigo. Revela que tem fortes lembranças da rotunda da Boavista, elogia a Casa da Música e agradece "de portuense para portuenses", um agradecimento complementado pela escolha do tema de encerramento, "O Porto Aqui Tão Perto". Atingiam-se as duas horas aproximadas de concerto. Se para Godinho "é a alegria que nos torna os dias úteis", não restaram dúvidas de que, para as centenas de pessoas que encheram a Casa da Música, o dia estava ganho.
· 07 Dez 2006 · 08:00 ·
Eugénia Azevedo
eugeniaazevedo@bodyspace.net

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