Jacinta
Centro Cultural de Belém, Lisboa
24 Nov 2006

A artista entra no palco, bonita, e chovem os aplausos. Depois de uma longa tournée de promoção ao seu segundo disco, Jacinta chega finalmente à capital, ao majestoso Centro Cultural de Belém – muito bem composto. Depois do muito aplaudido “Tribute to Bessie Smith”, o novo “Day Dream” foi o mote para uma série de concertos que levaram a cantora a a percorrer o país. Agora a cantora chega a uma das maiores sala do país, antes de finalizar a tour no Cinema Batalha, no Porto.

O álbum Day Dream, fresquinho, dá as duas primeiras músicas da noite. “Enfim” e “Decide Lá” abriram um concerto que nos relembrou que Jacinta é uma das mais fortes vozes nacionais. A banda acompanha com competência, mostrando a experiência adquirida ao longo desta recente sequência de concertos. O piano de Rui Caetano é sempre eficaz (a acompanhar e a solar), apesar de pouco expansivo, assim como o contrabaixo de João Custódio. Na bateria João Lencastre consegue ser original, apesar de não ter muito espaço para invenções. O saxofone alto de Jorge Reis, apesar de um ou outro momento, acaba por não mostrar muita expressividade ao longo de todo o concerto.

No entanto há uma questão que surge: o que diabo deu para se aportuguesar músicas que já são tão bonitas nas versões originais? Apesar de toda possibilidade poética da língua portuguesa, o trabalho de adaptação de standards de Tiago Torres da Silva acaba por soar pouco ágil, atabalhoado. Opção estética discutível, a adaptação linguística acaba por tornar-se um impedimento ao usufruto completo das canções. Porque não poderemos ouvir a bonita versão original “In a Sentimental Mood”, mas temos de ficar com uma versão manhosa? Alheia a estas questões, Jacinta continua a cantar e fá-lo óptimamente, expressando as suas boas capacidades técnicas.

As faixas de “Day Dream” vão compondo o alinhamento o espectáculo e pelo meio canções brasileiras – e Jacinta faz belas interpretações com sotaque. Há “Luíza” de Jobim, “Jogral” de Djavan e a belíssima “Chega de Saudade”. Mais do que straight jazz, há bossa nova e ainda blues. Do anterior disco dedicado a Bessie Smith são roubadas algumas faixas e “Baby Won’t you Please Come Home” é um dos melhores temas do concerto.

Para o final fica guardada a magnífica versão da “Canção de Embalar” de José Afonso. A cantora despede-se mas ainda regressa para dois temas, um deles repetido – “Decide Lá”, a controversa versão de “I'm Beginning To See The Light”. O trio fornece o ambiente correcto e dá espaço para Jacinta mostrar a sua belíssima voz – o entusiástico aplauso final comprova-o. Com uma selecção de alinhamento (e trabalho de arranjos) mais sofisticada – como aconteceu no primeiro disco, com muita responsabilidade de Laurent Filipe - esta cantora poderá ser elevada a outro patamar.
· 24 Nov 2006 · 08:00 ·
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

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